Essa semana no projeto de extensão recebemos um exercício para fazer em casa: escolher uma pessoa do dia a dia e escrever um perfil imaginário sobre ela, o "perfil perfeito". Bom, não acho que um dia alcançarei esse nível, nem imaginei como o perfil perfeito quando o estava escrevendo, mas foi algo que gostei muito de escrever.
Todos os dias, na maior parte do tempo, principalmente quando estou andando por aí, fico imaginando coisas fantásticas acontecendo ao meu redor. Parece loucura, mas é verdade. Vejo de guerras à florestas de gigantes. Os sons, os cheiros, as pessoas despertam em mim essas visões, mas nunca achei interessante compartilhar essa minha maneira especial de olhar para as coisas, pois é fantasiosa demais. Porém, esse perfil foi a minha chance. Era para ser sobre o que você imagina da pessoa. Bom, eu imagino muitas coisas, de verdade, e isso foi o que eu consegui colocar no papel.
A pessoa sobre a qual eu escrevi está no cotidiano de muitos, e eu acho que seria muito legal se todos nós pudéssemos tentar ver as coisas por um ângulo diferente de vez em quando. Sei que não sou A super jornalista da parada, mas já aprendi umas coisinhas com as reportagens que tive a oportunidade de fazer, e por enquanto, uma das mais importantes foi que: as coisas nem sempre são como imaginamos (quase nunca, na verdade).
É muito comum ir para a pauta pensando uma coisa e encontrar algo totalmente diferente, ainda mais em se tratando desse lado mais social do jornalismo, mas acho que tudo depende de como você irá utilizar o material que tem para produzir um conteúdo legal. Já aconteceu de eu pegar uma pauta e me surpreender, mas dar um jeito de trabalhar com isso e depois descobrir que outros colegas tentaram trabalhar com a mesma pauta, mas em razão de os resultados não terem sido como esperavam, desistiram, "a pauta caiu" para eles.
Não sei nem metade do que gostaria sobre jornalismo, contudo, já sei a coisa mais importante de todas: é a coisa que eu mais amo fazer na vida. Por enquanto é o que importa. E também não desistir, e até testar meus limites. Estou (um pouco contrariada), deixando mais pessoas lerem o que eu escrevo, perdendo a vergonha, e persistindo sempre. Esse perfil falso foi difícil para mim, pois senti que estava expondo todo o meu mundo de imaginação nele (na verdade foi só uma parte, mas era meu mundo, minha imaginação secreta), todavia consegui escrever. Não está o melhor que eu sou capaz, acredito, entretanto para mim já é suficiente ser capaz de começar a transcrever as realidades da minha alma para o papel, para mais alguém ler e conhecer.
Ps.: Sim, ainda pretendo escrever o verdadeiro.
Solitária?
De fato, é o que pensam, mas não. De jeito nenhum. Quando nascemos somos
batizados duas vezes, ou pelo menos alguns de nós. Ela foi uma dessas pessoas
e, graças a esse segundo batismo, viverá sempre com a certeza de que jamais
estará sozinha. Quanto ao primeiro, não importa mais.
Os
dias poderiam ser todos iguais para uma pessoa comum, sem o dom. Não se passava
um por do sol sem que um evento extraordinário ocorresse em seu reino, tudo
graças ao bendito dom. Ela nem imagina de onde ele veio, só sabe que existe e
faz bom uso dele.
Hoje,
como em todas as manhãs, estava sentada em sua varanda, no topo do castelo. Ela
tinha formato de ponte, pois nossa protagonista gostava de poder atravessar de
lá para o outro lado de sua casa sem precisar passar por tantos corredores e
portas. Era uma ponte larga, de pedra, e todo tipo de gente passava por lá,
pois ela permitia que os plebeus transitassem pelo castelo. A ponte começava lá
no chão, próxima a uma estrada por onde carruagens transitavam freneticamente, terminava
no pátio do castelo. Era enorme.
Todos
a conheciam, mas poucos chegavam a lhe dirigir a palavra. Ela sentava no chão
mesmo, gostava, achava-o confortável. Nessa manhã, vestia um vestidinho
amarelo, florido, longo, pés descalços, tiara na cabeça. Levou um pedaço de pão
para mordiscar enquanto contemplava as carruagens passando lá em baixo. Os
cavalos eram tão bonitos e bem cuidados! Havia os brancos, os pretos, os
marrons, alguns eram enfeitados com fitas e penteados especiais em suas crinas.
Ela gostava de se imaginar conduzindo um desses alazões, em uma floresta
talvez, o vento esvoaçando seus cabelos, o odor da terra, das plantas,
penetrando suas narinas com a mais pura delicadeza. Passava horas perdida
nesses pensamentos.
Estava
analisando se seria mais adequado trançar a crina de seu cavalo – ou égua,
ainda não estava decidida -, ou então enfeitá-la com fitinhas, quando um
passante sentou-se ao seu lado:
-
Bom dia, senhora!
-
Bom dia, meu caro. Como
vai a sua manhã?
-
Não tão boa quanto a sua,
isso posso garantir. Percebi que estava perdida em pensamentos e sinto ter
interrompido, mas preciso de uma história com urgência!
Ah,
havia mais uma peculiaridade sobre essa senhora que gostava de sentar no chão
de pontes e observar o decorrer dos dias: ela era contadora de histórias.
Sempre que alguém precisava de uma história, podia procurá-la, era um trabalho
de tempo integral. Isso começou quando ainda era bem nova, no dia em que
conheceu um pobre viajante.
O
tal viajante era vendedor de poções, mas ainda não dera a sorte de vender uma
sequer. Realizava essa função há sete anos. Ela o encontrou em um passeio que
dava na floresta, procurando flores para fazer uma coroa e frutas silvestres
para distribuir aos passantes da ponte. Ele estava sentado debaixo de uma
árvore e chorava. Ela se aproximou e perguntou o que acontecera, ele
compartilhou sua história e ela achou que deveria fazer o mesmo:
“Era
uma vez uma pobre senhora, seu nome era Maria e ela não tinha casa. Passava
seus dias pelas ruas, vagando sem rumo, em busca de Deus, em busca da vida, de
significado. Às vezes uma alma caridosa apiedava-se e lhe cedia uns trocados,
ou dava-lhe um pedaço de pão. Ela era feliz. Contra todas as expectativas,
nunca se via essa senhora sem um sorriso no rosto, pois quando ela nasceu, foi
presenteada com uma coisa tão valorosa que seria impossível para qualquer
ladrão roubá-la: esperança.
“Seus
dias eram todos iguais. Lúgubres, para os cegos, reluzentes para os
visionários. Sua sina estava decidida: iria morrer, não seria lembrada. Ela
sabia disso, e passava todos os dias com um sorriso no rosto”.
Suas
histórias eram mágicas, o efeito, imediato. Aquele vendedor nunca mais
percorreu o passar dos segundos no relógio da mesma maneira. Nem ninguém que já
ouviu-as conseguiu contemplar o alvorecer sem um transbordar de felicidade no
coração. Ela abria olhos, almas, vidas. Com sua própria história.
A
fumaça dos carros enevoava a passarela e o odor forte de gasolina ativava até o
olfato menos aguçado de qualquer passante. Pequena, solitária, invisível, a
senhora se encolhia em uma das curvas das grandes ladeiras que delimitavam
aquela quase ponte. Quem a via, olhava com pena. Não sabia do seu dom.











Isabela Maia, estudante de Jornalismo, 20 anos, apaixonada por filosofia, pedagogia, psicologia, literatura... Leitora compulsiva, viciada em videogames. Gosta muito de escrever e tenta fazê-lo todo dia; um dia pretende ajudar muitas pessoas com sua escrita.
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