22 de maio de 2015

A espera

Hoje no meu projeto de extensão fizemos uma atividade muito interessante de descrever uma cena sugerida pela orientadora. O resultado foi muito interessante, principalmente considerando a quantidade de situações diferentes que surgiram disso. Resolvi postar minha pequena crônica aqui.


O sol queimava a terra seca, amarelada e batida daquele lugarzinho, não-cidade, não-vila, esquecido por Deus. Ele sempre aparenta castigar mais esses locais do que aos outros, sem trégua, queima, escalda, ebule, sublima. A temperatura eleva-se a ponto de fazer evaporar a água dos poços de pedra antigos,  acabados, destruídos.

Como em uma cena de filme, a brisa seca transporta um maço de capim, levanta grãos de poeira, e por trás do nevoeiro de areia lá estava ele, sentado. Gostava de deitar-se em um pequeno pedaço de mato morte que por ali se encontrava. Suas pontas afiadas roçavam sua barriga, picavam, machucavam, mas ele nunca se incomodou. Passava seus dias observando os raros automóveis cortarem o lugarzinho com sua efemeridade, enquanto abanava as moscas com suas longas orelhas cor de terra e rosnava de vez em quando para os lagartos que ousavam se aproximar demais. Gostava de deitar-se, mas hoje estava sentado.

Era vira-lata, assim como todos os habitantes de lugar nenhum. Era misto de miscibilidade, abandonado à própria sorte. Feliz. Seres como ele não eram jamais incomodados, eram temidos, esquecidos. Bastava um latido e um arreganhar de caninos, ou um abanar de rabo e uma lambida na mão e poderia ter o que quisesse. Sabia manipular os humanos.

Hoje não tinha vontade de conviver com a presença de mais ninguém, sentia que algo maior o esperava, algo que estava por emergir dos confins da estrada. Por isso, lá sentou-se, pelos fins da madrugada, antes mesmo de o astro dono da luz surgir, e ficou abanando o rabo sem parar. Às vezes rosnava para um ou outro lagarto desavisado, ou tentava engolir um inseto que se aproximava demais. Mas o resto de sua concentração estava na estrada. Chegara sua hora.

Um caminhão. Poeira. Nevoeiro. Impacto. Humanos. Gritos.

Escuridão.

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