Nós os encontramos todos os dias, eles estão sempre
lá, mas não os vemos. São invisíveis. Invisíveis porque a sociedade se recusa a
enxergá-los, assim como a qualquer outra imperfeição no modelo de vida perfeita
que todos procuramos seguir à risca. Quase nos esquecemos que são pessoas de verdade
quando estão fantasiados. Entretanto, assim que colocam suas máscaras, no final
do expediente, máscaras que custaram mais do que jamais poderão pagar, nos
assimilamos.
No fundo, somos todos invisíveis. Todos usamos máscaras,
queremos nos encaixar, nos assimilar. Todavia, parte de nós tem condições de
usar o disfarce em tempo integral, e eles não. Por isso, os desconhecemos, os desassociamos
com seres humanos. Eles são apenas objetos, seres inanimados, coisas. Hoje não.
Essas pessoas são as mais importantes para o
funcionamento da sociedade, cuidam de sua higiêne, organização, estrutura. Como
pode, então, ela ter a audácia de menosprezá-las? Sem elas, que seriam das
ruas, dos prédios, dos hospitais, de todos os estabelecimentos, casas,
supermercados?
Os trabalhos mais basais, estruturais e importantes
do mundo são os que se realizam em mórbido silêncio, sem grandes vangloriações,
sobrecarregados pelo peso exorbitante das contas a pagar. Os empregos de pano,
água, cimento, martelo, sustentados pela esperança de sobreviver. Viver não é
possível, não sem as máscaras. Sem esses invisíveis aos olhos miopes do mundo,
a sociedade entraria em colapso. Viria o caos.
Chegou a hora de o mundo abrir os olhos, acordar, de
fazer a sociedade encarar seus rostos e aceitar: sim, eles são seres humanos;
sim, eles têm sentimentos. Eles são os seguranças, os faxineiros, os lixeiros,
as empregadas domésticas. Trabalhos tão comuns, que “qualquer um pode fazer”,
tão necessários, mas que geram tanto desprezo. Tamanho a ponto de seus próprios
salários serem precários, exigindo deles a atuação em outros empregos para que
possam manter a família.
No Brasil, o salário líquido de um indivíduo que
trabalha com faxina ou serviço doméstico equivale a apenas R$3,45 por hora,
enquanto na Europa no geral, essas mesmas pessoas recebem em média R$20 por
hora. Como a sexta maior economia do mundo admite essa situação? Decerto, para
que o PIB do país continue crescendo, é preciso haver maior valorização dos
trabalhadores, especialmente os de base, pois eles são os alicerces da
sociedade. E mais importante, são pessoas, são dignos.
Em um país onde os responsáveis por formar
intelectualmente todos os integrantes da pátria são menosprezados, com salários
incondizentes com sua carga de trabalho oficial e extra – pois precisam
corrigir provas, preparar aulas -, não seria de se esperar mais. Por ano, em
dólares, professores do ensino fundamental ganham, no Brasil, cerca de $10.375.
Talvez o fato de a educação ser precária implique a desvalorização dos demais
trabalhos que sustentam o país, e, ainda, contribua para que a inconsistência
de uma economia tão forte possuir índices tão precários seja ignorada pela
maioria da população. O importante é ter comida na mesa todos os dias.
O problema – um dos vários – é que essa comida
deveria ser assegurada, no mínimo, por um salário digno, mas nem isso acontece.
Esses profissionais tão importantes sofrem com tal sina, possuem uma sobrevida
para trabalhar em prol de uma sociedade que os menospreza. Será que ao menos
sabem disso?












Isabela Maia, estudante de Jornalismo, 20 anos, apaixonada por filosofia, pedagogia, psicologia, literatura... Leitora compulsiva, viciada em videogames. Gosta muito de escrever e tenta fazê-lo todo dia; um dia pretende ajudar muitas pessoas com sua escrita.