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31 de dezembro de 2015

Alicerces


Nós os encontramos todos os dias, eles estão sempre lá, mas não os vemos. São invisíveis. Invisíveis porque a sociedade se recusa a enxergá-los, assim como a qualquer outra imperfeição no modelo de vida perfeita que todos procuramos seguir à risca. Quase nos esquecemos que são pessoas de verdade quando estão fantasiados. Entretanto, assim que colocam suas máscaras, no final do expediente, máscaras que custaram mais do que jamais poderão pagar, nos assimilamos.

No fundo, somos todos invisíveis. Todos usamos máscaras, queremos nos encaixar, nos assimilar. Todavia, parte de nós tem condições de usar o disfarce em tempo integral, e eles não. Por isso, os desconhecemos, os desassociamos com seres humanos. Eles são apenas objetos, seres inanimados, coisas. Hoje não.

Essas pessoas são as mais importantes para o funcionamento da sociedade, cuidam de sua higiêne, organização, estrutura. Como pode, então, ela ter a audácia de menosprezá-las? Sem elas, que seriam das ruas, dos prédios, dos hospitais, de todos os estabelecimentos, casas, supermercados?

Os trabalhos mais basais, estruturais e importantes do mundo são os que se realizam em mórbido silêncio, sem grandes vangloriações, sobrecarregados pelo peso exorbitante das contas a pagar. Os empregos de pano, água, cimento, martelo, sustentados pela esperança de sobreviver. Viver não é possível, não sem as máscaras. Sem esses invisíveis aos olhos miopes do mundo, a sociedade entraria em colapso. Viria o caos.

Chegou a hora de o mundo abrir os olhos, acordar, de fazer a sociedade encarar seus rostos e aceitar: sim, eles são seres humanos; sim, eles têm sentimentos. Eles são os seguranças, os faxineiros, os lixeiros, as empregadas domésticas. Trabalhos tão comuns, que “qualquer um pode fazer”, tão necessários, mas que geram tanto desprezo. Tamanho a ponto de seus próprios salários serem precários, exigindo deles a atuação em outros empregos para que possam manter a família.

No Brasil, o salário líquido de um indivíduo que trabalha com faxina ou serviço doméstico equivale a apenas R$3,45 por hora, enquanto na Europa no geral, essas mesmas pessoas recebem em média R$20 por hora. Como a sexta maior economia do mundo admite essa situação? Decerto, para que o PIB do país continue crescendo, é preciso haver maior valorização dos trabalhadores, especialmente os de base, pois eles são os alicerces da sociedade. E mais importante, são pessoas, são dignos.

Em um país onde os responsáveis por formar intelectualmente todos os integrantes da pátria são menosprezados, com salários incondizentes com sua carga de trabalho oficial e extra – pois precisam corrigir provas, preparar aulas -, não seria de se esperar mais. Por ano, em dólares, professores do ensino fundamental ganham, no Brasil, cerca de $10.375. Talvez o fato de a educação ser precária implique a desvalorização dos demais trabalhos que sustentam o país, e, ainda, contribua para que a inconsistência de uma economia tão forte possuir índices tão precários seja ignorada pela maioria da população. O importante é ter comida na mesa todos os dias.

O problema – um dos vários – é que essa comida deveria ser assegurada, no mínimo, por um salário digno, mas nem isso acontece. Esses profissionais tão importantes sofrem com tal sina, possuem uma sobrevida para trabalhar em prol de uma sociedade que os menospreza. Será que ao menos sabem disso?

Vietnã: a guerra continua. Pela sobrevivência

Após anos a fio, o Vietnã conseguiu vencer a superpotência capitalista. Mas a guerra não acabou.


Milhares de quilômetros distante do sudeste asiático, onde ocorreu a histórica guerra, outro Vietnã trava uma luta contra o capitalismo e todos os seus valores e, contra todas as expectativas, seus soldados também estão vencendo. Isso porque, ao contrário da maioria dos indivíduos, eles conseguiram encontrar significado nas minúcias da vida, conseguiram ser felizes apesar de tudo.

Era uma manhã ensolarada, úmida, e o céu estava bem claro, mas para os mais experientes ele anunciava chuva. Alheia à qualquer condição climática, a favela do Vietnã erguia-se imponente por entre dunas e muita poeira. É tão pequenininha, que se você piscar ao passar por ela, ao abrir os olhos já estará longe. 
Favela é uma denominação forte, muitos dos próprios moradores se recusam a utilizá-la. No passado talvez tenha sido mesmo, naquele tempo remoto, quase 50 anos atrás, mais, menos, quem sabe? Só se sabe que as casas eram de palha e madeira roubada.
As casas se encontram apenas de um dos lados da estrada e vão subindo as dunas até onde a vista alcança. Do outro lado, cercas de arame delimitam uma área que não lhes pertence e da qual mantém a maior distância possível. É o primeiro sinal da segregação que separa aquela gente do resto do mundo.
Hoje, com a maioria das casas de alvenaria, talvez favela seja um nome inadequado para a pequena comunidade localizada na Estrada de Alcaçuz, ou Rua da Esperança. É o que seus moradores pensam, mas não as prefeituras e todos os demais. Não importa, eles gostam de morar lá de todo jeito. É um lugar calmo, tranquilo... Mas cheio de poeira!

17 de março de 2015

Ser homossexual na minha geração


Há alguns dias estava conversando com meu namorado e surgiu a seguinte questão: ser homossexual é mais fácil hoje em dia? Eu achava que sim, não conheço homofóbicos, pelo contrário, tenho muitos amigos gays assumidíssimos e orgulhosos e ninguém no meu ciclo de amizade com algum problema com isso. Mas então percebi que estava me restringindo muito, talvez a situação não fosse realmente essa. Seguindo essa linha de pensamento, decidi estrear minha vida como repórter escrevendo minha primeira matéria sobre ser homossexual na minha geração.

 
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