13 de maio de 2015

Alma doce, vida amarga


Eram nove horas da manhã quando Zuleide - 55 anos, nem um único fio de cabelo grisalho em sua curta cabeleira, cerca de 1,65, andar vagaroso devido a problemas nas articulações, pele mulata clara, rosto levemente enrugado, olhos pequenos, sobrancelha clara, sorriso largo, mãos macias, coração bondoso - e eu saímos de casa naquele dia quente e seco do suposto inverno. Não há inverno aqui, só calor constante. Caminhávamos a passos lentos, conversando sobre os pormenores de sua vida; ela me contava sobre as intrigas no trabalho, na família, eu apenas ouvia e fazia comentários periódicos, minha mente estava longe. Enquanto ela discorria sobre como não se dava bem com a outra moça que trabalha na casa, eu pensava em como iria abordá-la. Uma pessoa tão simples, tão comum, todavia eu sabia que havia muito conteúdo dentro daquele baú trancafiado.

Chegamos à parada de ônibus, do outro lado da rua, quase em frente à casa. Estava deserto, mas ao menos uma brisa leve nos acalentava com seu abraço e a sombra das árvores acima de nós era suficiente para que esquecêssemos da temperatura. Esperávamos o transporte, porém mal passavam carros na estrada, isso podia demorar. Era a hora. A pergunta saltou de meus lábios antes que tivesse controle e ela, tímida, sorridente, ficou embaraçada, no entanto, ao mesmo tempo lisonjeada. Tentou negar, contudo, a vontade de contar sua história, a oportunidade de finalmente tirar aquele peso de si foi suficiente para libertá-la; poucos segundos depois sua vida jorrava bem na minha frente e eu ouvia, hipnotizada, o relato de uma mulher cheia de amor, com uma vida antagônica ao que merecia, um caso de prova da inexistência do karma, pois ela transbordava bondade, entretanto não era sempre isso que recebia.

Zu, apelido carinhoso, trabalhou em casas de família desde seus nove anos de idade. Antes disso, sua infância foi muito feliz, apesar de todas as dificuldades. A família era não possuía uma renda muito ada à quantidade de membros que nela haviam, o pai era pescador e a mãe dona de casa. O único alimento que nutria a ela e mais seus irmãos, não quis contar quantos eram, era um pouco de pão e leite pela manhã e um peixinho passado na farinha pela tarde, após as 17 horas, assim que o pai regressava da jornada. “Quando a gente avistava o barco já corria para recebe-lo e gritava bem alegre: Mãe, o papai chegou!”.

O maior amor que recebeu na vida talvez tenha sido o dele. A mãe não a tratava tão bem quanto às irmãs, escondia as coisas quando ela pedia, dizia que não tinha, acabara, no entanto depois Zuleide as encontrava e seu coração apertava. “É difícil quando você ama alguém e ela não gosta de você, mas eu nunca deixei de amar minha mãe por isso, só não amava ela tanto quanto amava o meu pai”. A conexão que teve com seu querido pescador era sua alegria de viver. Desde o instante em que começou a trabalhar para ajudar no sustento da família, eles se despediam todos os dias no momento de sua partida e, ao descer do ônibus, no regresso ao lar, já avistava seu pai sentado em uma cadeira de balanço em frente a casa, esperando-a chegar. E foi assim até o último suspiro desse amor. “Parecia que ele estava só me esperando chegar em casa para ir embora. Eu corri e o abracei e ele segurou minha mão bem forte, só deu tempo de dizer que o amava e ele também, depois...”. Uma lágrima tímida escorre pelo seu rosto enrugado. É difícil percebê-la, tem que percorrer muitos túneis até finalmente poder se libertar e cair, lúgubre, no chão do ônibus.

Seu tom aumenta, o ônibus está cheio. Ela conta sobre quando foi, aos nove anos, para São Paulo, trabalhar na casa de uma mulher de cujos filhos cuidava desde pequenos. Uma criança cuidando de crianças. Todo centavo que recebia enviava para a família, e o faz até hoje. Não tem coragem de comprar uma garrafa de água na rua para não gastar o dinheiro que sente dever aos seus consanguíneos. Em seu retorno ao lar, já mocinha, conheceu um sujeito - e a ele se refere como se sequer fosse um ser humano, chama-o de “isso”, “aquela coisa”, ou nem chama - juntou-se e teve quatro filhos, mas eles não a tratam com tanto amor quanto ela o faz: “Meu filho não gosta de mim, sabe? Ele me xinga muito, me chama de rapariga”, sussurra, como se pronunciar tal palavra fosse errado, como se ainda lhe causasse espanto, com seu ar de proibido. Essa relutância em aceitar a mãe, contudo, não a intimida, continua tentado contatá-lo, mudá-lo. Não adianta.

Em casa, mora com a irmã, filhas, sobrinhas e seu neto. No instante em que se refere à sua moradia, soa como o último lugar em que gostaria de estar. É ignorada, maltratada, desrespeitada. Ela conta seus casos e eu não consigo esboçar reação: é indignante que uma família ouse tratar um de seus membros de maneira tão desumana. Sua irmã mais nova costuma destratá-la com frequência, chega a agir como se Zuleide fosse um bicho, desprovida de sentidos, de vontades; sequer a apresenta às visitas. Certo dia a diretora da escola em que trabalha veio conversar com ela em casa, e quando perguntou quem era aquela, toda molhada, lavando roupa incansavelmente, a irmã, Antônia, abanou a mão e respondeu com desdém: “Mora aqui”. Zu ficou em pedaços naquele momento, mas fingiu não se importar. Terminou seu serviço, passou e deu boa noite educadamente, todavia, no fundo, não conseguia entender a razão de ser tratada com tamanha arrogância.

Não foi a última vez que algo assim a acometeu. Uma tarde, lavando roupa no quintal, pois a máquina estava quebrada, a trancaram do lado de fora e custaram a abrir. Ignoravam seus apelos como se fosse um cão ladrando por um motivo qualquer. Por fim, à noite, depois de ser obrigada a tomar banho na mangueira do quintal, foi acolhida, contudo, com muita relutância: “Você vai sujar a casa toda que eu acabei de limpar”, reclamava a filha enquanto abria a porta com ignorância. Ela não esboçou reação.

Nem toda sua família a trata mal, no entanto. Como se o espírito de seu pai houvesse migrado de corpo, sua filha Raquel a ama como ninguém, infelizmente, a distância de um oceano as separa. Seu amor será sempre fonte de união e as tentativas da filha de convencer sua mãe a visita-la não cessarão até serem aceitas. “Ela comprou passagem pra mim e tudo, o voo era direto daqui pra Itália, e não era em classe econômica não, era naquela outra”. Uma surpresa Deus não se compadecer com a situação. Como pode o único amor da vida de alguém estar tão distante?


Agora estamos na cozinha e enquanto prepara um café com leite ela devaneia sobre seus sonhos e objetivos. Quer sair daquela casa de loucos, desalmados. Já encontrou um quartinho para alugar em Ponta Negra e com o seu salario poderia se manter muito bem lá, sozinha, em paz. Poderia fazer uso de seu dinheiro, poderia ler o dia inteiro e, pela noite, ligar a televisão para não se sentir tão sozinha.

No local que habita a leitura inexiste, não encontra a paz necessária à concentração. Jogam-na de uma lado para o outro, tenta ajudar com a louça, recusam, com as roupas, recusam, senta-se, mandam-na levantar, descansa, mandam trabalhar, trabalha, mandam parar. Não se sente livre, não pode viver. Quietinha, deitada na cama, poucas vezes encontra um momento oportuno para ler seu livro preferido, a Bíblia. Lê e relê. Ama aquelas histórias, são seu conforto, são o que mantém acesa a chama da esperança em seu coração.

Voltamos aos casos. Este, em especial, deixou-me boquiaberta, tão indignada que quis entrega-la naquele momento mesmo todas as minhas rasas economias para que alugasse um apartamento longe daquela gente. Zuleide, tão pacífica, sempre deixou passar tudo o que lhe faziam. Uma das poucas vezes em que reagiu às maldades que a acometem na casa onde vive, as coisas não acabaram bem para ela. O destino não funciona de maneira justa e muitas vezes o que se dá é contrário ao que se recebe. Acabara de utilizar uma batata para fazer um purê para seu neto adoentado, era sua comida preferida e não havia se alimentado bem naquele dia. O menino, entretanto, rejeitou o alimento e ela precisou jogá-lo fora. Enquanto lavava o prato, sua irmã veio reclamar que ela tinha gasto a batata “para nada”, vociferando que Zuleide não fazia nada na casa, não ajudava, só estava ali para atrapalhar. Aquele foi o ápice de sua tolerância, sua paciência acabou. Era suportável ser tratada como animal, como invisível, como o que fosse, mas era inacreditável que aquela mulher ousasse inferir que Zu não fazia nada pela casa, quando esta sequer tocava seu próprio salário. Não, não iria aceitar. Bradou de volta tudo o que fazia por aquela casa, que a excluía até nos assuntos mais simples, como discussões sobre a própria residência, como se ela não compartilhasse a mesma vida, o sustento. A ira foi tanta que quebrou o prato que lavava. Ela se desculpou e passou a limpar a sujeira.

Terminado o trabalho, foi-se retirando para a sala quando sua sandália grudou em algo. Olhou para o chão e deparou com uma poça interminável de sangue. Um pedaço de vidro atingira uma veia de seu joelho e jorrava líquido vermelho sem parar. Todos estavam na sala, ela não pediu socorro e nenhum deles se deu ao trabalho de vir prestar voluntariamente; se não fosse por uma vizinha estar passando por ali no momento, talvez seu corpo cansado, envelhecido, não tivesse suportado. Zuleide ainda relutou em aceitar a ajuda da vizinha, não está acostumada a ser bem tratada. Passaram pela sala na saída, sua irmã a olhou com desprezo e murmurou: “Achei bem merecido”. O barulho da televisão preenchia o ambiente, ninguém mais se manifestou na sala.
           
A única coisa de que se arrepende na vida é de não ter estudado. Gostava de estudar, porém foi obrigada a parar aos doze anos. Anseia pelo momento em que poderá voltar a praticar o ofício de estudante “Em Ponta Negra tem uma escola para adultos”, conta animada. Aos seus 55 anos, anseia pela aposentadoria, quer ser livre, sair de casa, viver sua vida. É como uma jovem de 18 anos presa no corpo de uma senhora. Sua alma não teve tempo de envelhecer, pois sua infância, sua adolescência foi tirada de si. Mas não se arrepende, é muito grata por tudo o que tem e feliz por tudo o que conquistou. Orgulha-se de poder dizer que todos os seus filhos frequentaram a escola até o fim. A próxima será ela.

            

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