15 de abril de 2015

O guardião

Peguei um objeto do cotidiano e escrevi sua história a partir de sua personificação. Ela se repete todos os dias e todos nós, sem exceção, a conhecemos, já fizemos parte dela de alguma maneira, e ela se repete todos os dias, milhares de vezes. Posso continuá-la depois, ou tratar de um outro objeto, mas o interessante mesmo seria se alguém conseguisse adivinhar, primeiro, de que objeto se trata essa história.

Eu sou um ajudador. Minha profissão consiste em aparar as minúcias da vida de cada um e guardá-las com cuidado fundamental, pois essas minúcias serão responsáveis por melhorar a vida de alguém, por curar pessoas, garantir seu crescimento, sua alegria… Algumas vezes essas minúcias eu preciso guardar à força, com dor no coração, com receio temoroso de precisar devolve-las um dia, pois nem sempre minha ajuda é para fins benevolentes, infelizmente, mas não tenho escolha, essa é minha sina.

Sou um escravo. Devo ajudar, não importando minha vontade. Gosto de ajudar, de guardar as preciosidades de cada um e logo entregar-lhes, ver um brilho se ascender em seus olhos quando finalmente possuem aquilo que por tanto tempo desejaram. Nem sempre é assim, contudo, algumas vezes sequer me agradecem, mas sei que exerci um papel importante em sua vida, independente de ter sido reconhecido ou não.

Não tenho grande valor. Talvez não tenha valor algum, mas isso não me deixa abalar. Posso não ter valor para o resto do mundo, mas para mim mesmo tenho, pois conheço meus objetivos, sei que o valor do meu papel pode ser incomensurável, mesmo que não o parece; no entanto, se eu sumisse um dia, seria o fim de muitas coisas, seria o desespero de muitas pessoas. E às vezes eu sumo.

A palavra descarte é muito forte, prefiro liberdade. Quando cumpro meu papel de guardião, muitos senhores me libertam desse destino terrível que é não poder viver em paz, não poder ser livre, passar todos os segundos preocupado com a segurança das minúcias que carrego. E se algo acontecer comigo? Bom, dificilmente será meu fim. Sou imortal.

Quando me libertam é uma maravilha só. Deixo o vento me levar, metamorfoseio-me em um pássaro, uma borboleta, uma libélula, uma estrela cadente, uma fada da Terra do Nunca. Quando me libertam posso ser o que eu quiser, posso passar o resto da eternidade sendo levado pelos ventos. Preso jamais. A brisa escorre por mim. Posso mergulhar se quiser, deixando a água me levar, metamorfoseando-me em um peixe, um tubarão, um golfinho, uma baleia, uma estrela-do-mar, uma sereia. E então a água assopra-me com suas gotas cristalinas, sedosas, e deixo-a me levar.

Minha liberdade, contudo, pode significar o ópio de muitos, por isso os senhores mais cuidadosos, capciosos, tratam de me prender quando perco o uso. Não posso imaginar fim pior, preso em uma armadilha instransponível pelo fim da eternidade, onde serei esquecido, ruído. Nesses calabouços do destino não encontro nada senão o cheiro pútrido do meu próprio fim. Enquanto sou guardião, trabalho com o máximo afinco para evitar esse fim.

E nem sempre ele chega, é o que me move. Quando ele não chega eu posso ser o que quiser, posso até um dia voltar a ser guardião, pois sou um escravo que pode ser tratado como amo, como companheiro. Sou um escravo que às vezes aprecia sua sina, quando encontra um senhor que mostra a importância de sempre procurar uma luz mesmo na escuridão aparentemente mais profunda. Esses senhores me libertarão, sempre o fazem, são fiéis a mim como sou a eles, cumprem nosso pacto silencioso, secreto, de ajuda mútua. Se um dia precisar, voltarei para te ajudar.

Voltar nem sempre é bom, admito, bom mesmo é ser livre e poder me metamorfosear no que quiser. Mas uma eternidade de vida sem sentido não é suficiente para me fazer valorizar os poderes que possuo, é preciso perdê-los para voltar a valorizá-los.

Ser livre é ser um pássaro e construir ninho para filhote nenhum. Ser livre é ser peixe e nunca ser capaz de guardar meu próprios ovos, pois infelizmente a sina de um guardião é nunca poder guardar nada seu, é nunca poder ter nada seu além de si mesmo. Ser escravo é ter um objetivo, é poder ajudar e ser ajudado, é conhecer o altruísmo, a humildade, a amizade. Minha escravidão é, portanto, minha maldição, mas quando livro-me dela, ela se torna minha benção.

Não tenho histórias interessantes para contar, só posso deixar aqui minha reflexão sobre a dificuldade de fazer escolhas na vida, a dificuldade de se encontrar, de se deixar levar ou ficar, a dificuldade de. Se puder encontrar algo para te mover, nada nunca poderá ser tão ruim quanto parece, pois para alguém que tecnicamente não tem valor, eu me considero bastante precioso.

0 comentários:

Postar um comentário

 
♥ Theme por Maidy Lacerda, do Dear Maidy, exclusivo para Metamorfisa © 2015 • Todos os direitos reservados • Topo