Seu nome é Aninha. Não é diminutivo, já foi, agora de
apelido substituiu seu nome de certidão, passou a ser como se apresenta, como
assina as provas da universidade e como assinava as do colégio. Só não assina
as coisas mais sérias porque a lei não teria a sensibilidade de compreender que
Aninha não é essa tal de Ana Maria Sousa das Graças que aparece em todos os
seus documentos, mas só Aninha mesmo. É como recebe suas cartas, seus e-mail, é
como ela é.
Passou a ser Aninha porque era inha em tudo, miudinha,
caladinha, timidazinha, bonitinha… Até suas histórias, diz, são inhas. E por
ser assim, tão discretinha, quietinha, Aninha sofreu. Algumas pessoas se
aproveitam das inhas para se sobressaírem, para tratá-las mal, para se sentirem
superiores, e foi isso o que aconteceu com nossa Aninha, ainda quando era
jovenzinha.
Aos 15 anos Aninha ainda era só Ana, passou a ser chamada de
Aninha quando conheceu Joana, que a chamava assim e o apelido pegou. Foi também
graças a Joana que tanta coisa ruim chegou à vida de Aninha. Antes elas era
melhores amigas, inseparáveis, e Ana fazia tudo o que Joana queria, pois ela
sempre impunha sua vontade e a amiga, pacífica, quieta, nunca quis arranjar
confusão. E tudo continuou em paz por anos, até que os interesses das amigas passaram
a convergir, e Joana cada vez mais impunha suas vontades e Ana cada vez mais se
tornava inha.
Joana não entendia que a realidade não se curvaria sempre
aos seus desejos como Aninha costumava fazer, e quando a amiga passou a
discordar de suas imposições, passou a questioná-la, ela começou a aplicar
punições. Humilhava Aninha em público constantemente. Se ela ousasse se
comportar mal, Joana logo a cortava com suas frases típicas, como descreveu
Aninha: “Você é idiota?”, “Você é burra?”, “Sim… Alguém pediu sua opinião?”, ou
simplesmente imitava-a com uma voz ridícula. E todas as vezes Aninha se sentia
cada vez mais inha. E foi se tornando quietinha, tristinha.
Seu irmão mais velho via como Aninha sofria e sempre a
aconselhava a acabar a amizade, mas Aninha dizia não conseguir. Elas eram
melhores amigas, não é mesmo? Mas por dentro se perguntava por que Joana a
tratava assim, só a ela e não a ninguém mais. Claro, a voz que perguntava era
baixinha, um sussurro, inaudível. E ela continuou sofrendo, e seu irmão
continuou aconselhando, e ela continuou se magoando, e Joana continuou
brigando, e ela diminuiu, se tornou coitadinha, pobrezinha, Aninha.
Hoje Aninha culpa seus problemas de timidez e ansiedade
social em Joana. Antes, explica, adorava sair com seus amigos, ir ao cinema, ou
ver filmes em casa, se juntar com muita gente e fazer uma bagunça. Depois de se
envolver com essa tal melhor amiga, sair se tornou um pesadelo, pois todas as
vezes sabia que não tinha escolha, não poderia não ir e quando fosse seria
destratada na frente de todos os que estivessem lá. No início era só caso não
concordasse com Joana, depois parece que se tornou um passatempo da amiga, uma
necessidade, algo para fazê-la sentir-se no controle e uma maneira de mostrar
para todos os outros do grupo o que aconteceria caso a desbancassem. Aninha se
tornou a párea de um grupo de não amigos com quem não gostava de estar.
E ela não sabe por que, ou como, aguentou tanto tempo. Cinco
anos. Logo ela, que acredita que em uma amizade você deve se sentir bem com as
pessoas ao seu redor, se sentir aceita, poder ser você mesma sem ser julgada.
Ela se sentia o contrário disso. Um jogador de futebol tocando piano, um pintor
correndo a maratona, deslocada, desconfortável, incapaz, inha.
Tudo isso acabou afastando Aninha de seu irmão. Ele foi fazer
universidade em outra cidade e suas conversas se tornaram cada vez menos frequentes, geralmente só se falavam quando ela estava muito mal devido aos
maus tratos e precisava desabafar. Ele sempre a acolheu. Infelizmente, ela
levou muito tempo até ter coragem de colocar seus conselhos em prática. Tinha medo, não queria decepcionar ninguém, não podia, era só uma Aninha, incapzinha.
“É difícil se afastar das pessoas com quem você sempre
costuma estar, mesmo que elas te tratem mal, depois de um tempo você se acomoda
e não que mais sair daquele meio, com medo de que possa ser pior”. A menina carrega infinitas cicatrizes pelo
seu corpo, cicatrizes de todas as cores, de todas as dores psicológicas que sofreu e que, talvez,
nunca curem, só se tornem menos nítidas com o tempo. Essas feridas mal saradas
são a razão de Aninha ainda não se achar capaz de fazer muitas amizades, tem
medo de ser destratada, magoada. “Algumas vezes eles… Ela me tratava tão bem,
chegava a me sentir a melhor pessoa do mundo!”. Não dá para entender o que se
passava na cabeça de sua amiga, agora conhecida, um fantasma de seu passado,
não é possível imaginar o que leva alguém a transformar uma Ana em Aninha.
Mas nossa pequenininha já não se importa mais, ela abraçou sua sina e se transformou em Aninha por vontade própria, pois para ela não tem nada de errado em ser uma Aninha, ruim mesmo é ser uma Joana, mandona, grandona. Ser Aninha é ser feliz, é ter paz no coração, na alma, ciente de que nunca fez ou faria nada de ruim para alguém, pois é muito boazinha, é Aninha.












Isabela Maia, estudante de Jornalismo, 20 anos, apaixonada por filosofia, pedagogia, psicologia, literatura... Leitora compulsiva, viciada em videogames. Gosta muito de escrever e tenta fazê-lo todo dia; um dia pretende ajudar muitas pessoas com sua escrita.
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