5 de abril de 2015

Aninha



Seu nome é Aninha. Não é diminutivo, já foi, agora de apelido substituiu seu nome de certidão, passou a ser como se apresenta, como assina as provas da universidade e como assinava as do colégio. Só não assina as coisas mais sérias porque a lei não teria a sensibilidade de compreender que Aninha não é essa tal de Ana Maria Sousa das Graças que aparece em todos os seus documentos, mas só Aninha mesmo. É como recebe suas cartas, seus e-mail, é como ela é.

Passou a ser Aninha porque era inha em tudo, miudinha, caladinha, timidazinha, bonitinha… Até suas histórias, diz, são inhas. E por ser assim, tão discretinha, quietinha, Aninha sofreu. Algumas pessoas se aproveitam das inhas para se sobressaírem, para tratá-las mal, para se sentirem superiores, e foi isso o que aconteceu com nossa Aninha, ainda quando era jovenzinha.

Aos 15 anos Aninha ainda era só Ana, passou a ser chamada de Aninha quando conheceu Joana, que a chamava assim e o apelido pegou. Foi também graças a Joana que tanta coisa ruim chegou à vida de Aninha. Antes elas era melhores amigas, inseparáveis, e Ana fazia tudo o que Joana queria, pois ela sempre impunha sua vontade e a amiga, pacífica, quieta, nunca quis arranjar confusão. E tudo continuou em paz por anos, até que os interesses das amigas passaram a convergir, e Joana cada vez mais impunha suas vontades e Ana cada vez mais se tornava inha.

Joana não entendia que a realidade não se curvaria sempre aos seus desejos como Aninha costumava fazer, e quando a amiga passou a discordar de suas imposições, passou a questioná-la, ela começou a aplicar punições. Humilhava Aninha em público constantemente. Se ela ousasse se comportar mal, Joana logo a cortava com suas frases típicas, como descreveu Aninha: “Você é idiota?”, “Você é burra?”, “Sim… Alguém pediu sua opinião?”, ou simplesmente imitava-a com uma voz ridícula. E todas as vezes Aninha se sentia cada vez mais inha. E foi se tornando quietinha, tristinha.

Seu irmão mais velho via como Aninha sofria e sempre a aconselhava a acabar a amizade, mas Aninha dizia não conseguir. Elas eram melhores amigas, não é mesmo? Mas por dentro se perguntava por que Joana a tratava assim, só a ela e não a ninguém mais. Claro, a voz que perguntava era baixinha, um sussurro, inaudível. E ela continuou sofrendo, e seu irmão continuou aconselhando, e ela continuou se magoando, e Joana continuou brigando, e ela diminuiu, se tornou coitadinha, pobrezinha, Aninha.

Hoje Aninha culpa seus problemas de timidez e ansiedade social em Joana. Antes, explica, adorava sair com seus amigos, ir ao cinema, ou ver filmes em casa, se juntar com muita gente e fazer uma bagunça. Depois de se envolver com essa tal melhor amiga, sair se tornou um pesadelo, pois todas as vezes sabia que não tinha escolha, não poderia não ir e quando fosse seria destratada na frente de todos os que estivessem lá. No início era só caso não concordasse com Joana, depois parece que se tornou um passatempo da amiga, uma necessidade, algo para fazê-la sentir-se no controle e uma maneira de mostrar para todos os outros do grupo o que aconteceria caso a desbancassem. Aninha se tornou a párea de um grupo de não amigos com quem não gostava de estar.

E ela não sabe por que, ou como, aguentou tanto tempo. Cinco anos. Logo ela, que acredita que em uma amizade você deve se sentir bem com as pessoas ao seu redor, se sentir aceita, poder ser você mesma sem ser julgada. Ela se sentia o contrário disso. Um jogador de futebol tocando piano, um pintor correndo a maratona, deslocada, desconfortável, incapaz, inha.

Tudo isso acabou afastando Aninha de seu irmão. Ele foi fazer universidade em outra cidade e suas conversas se tornaram cada vez menos frequentes, geralmente só se falavam quando ela estava muito mal devido aos maus tratos e precisava desabafar. Ele sempre a acolheu. Infelizmente, ela levou muito tempo até ter coragem de colocar seus conselhos em prática. Tinha medo, não queria decepcionar ninguém, não podia, era só uma Aninha, incapzinha.

“É difícil se afastar das pessoas com quem você sempre costuma estar, mesmo que elas te tratem mal, depois de um tempo você se acomoda e não que mais sair daquele meio, com medo de que possa ser pior”.  A menina carrega infinitas cicatrizes pelo seu corpo, cicatrizes de todas as cores, de todas as dores psicológicas que sofreu e que, talvez, nunca curem, só se tornem menos nítidas com o tempo. Essas feridas mal saradas são a razão de Aninha ainda não se achar capaz de fazer muitas amizades, tem medo de ser destratada, magoada. “Algumas vezes eles… Ela me tratava tão bem, chegava a me sentir a melhor pessoa do mundo!”. Não dá para entender o que se passava na cabeça de sua amiga, agora conhecida, um fantasma de seu passado, não é possível imaginar o que leva alguém a transformar uma Ana em Aninha.

Mas nossa pequenininha já não se importa mais, ela abraçou sua sina e se transformou em Aninha por vontade própria, pois para ela não tem nada de errado em ser uma Aninha, ruim mesmo é ser uma Joana, mandona, grandona. Ser Aninha é ser feliz, é ter paz no coração, na alma, ciente de que nunca fez ou faria nada de ruim para alguém, pois é muito boazinha, é Aninha.

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