17 de março de 2015

Ser homossexual na minha geração


Há alguns dias estava conversando com meu namorado e surgiu a seguinte questão: ser homossexual é mais fácil hoje em dia? Eu achava que sim, não conheço homofóbicos, pelo contrário, tenho muitos amigos gays assumidíssimos e orgulhosos e ninguém no meu ciclo de amizade com algum problema com isso. Mas então percebi que estava me restringindo muito, talvez a situação não fosse realmente essa. Seguindo essa linha de pensamento, decidi estrear minha vida como repórter escrevendo minha primeira matéria sobre ser homossexual na minha geração.



Entrevistei gays, lésbicas, bissexuais, héteros e homofóbicos, e tudo acabou sendo uma surpresa muito grande para mim (e de acordo com a Eliane Brum é daí que vem as grandes reportagens). Essa questão da sexualidade está na mídia com cada vez mais frequência, mas não me lembro de já ter visto alguém buscar pela opinião dos jovens sobre isso. A verdade é que somos sim muito marginalizados, por sermos considerados "adultos em formação" raramente nossa opinião é ouvida e levada a sério. Rompendo tantos paradigmas, temos uma jovem escrevendo sobre outros jovens e os preconceitos que sofrem da sociedade.

Conversei com muitas pessoas a respeito do assunto, pedi para me escreverem sobre suas experiências, fiz perguntas e afundei nas respostas. A primeira coisa que percebi foi que as coisas estão mudando sim e, nos casos que pude observar, quanto mais jovem, mais aberta a cabeça para essas questões. Isso não quer dizer, contudo, que não exista mais o preconceito, ele está lá, muitas vezes de forma indireta, o que o faz ser ignorado. "Indiretamente, sempre rola aquele comentário de terceiros que segundos te contam algum tempo depois", diz Victor, de 17 anos. Quando perguntei que tipo de coisas já falaram, ele me disse: "Ah, nada de diferente. "Aquele é muito viado"". Nada de diferente. A partir daí já vi que algo estava errado.

Falando com Ingrid, 16 anos, perguntei sobre os preconceitos que já sofreu, perdas de oportunidades, ou agressões e fiquei espantada com a resposta: "Uma vez, no Parque das Dunas, estava beijando minha namorada da época e umas crianças jogaram uma bola de volei em nós". Insistindo na questão de preconceitos que já sofreu, ela me disse algo avassalador, que comprova o abuso que as pessoas de orientação sexual diversa da heterossexualidade sofrem: "Eu tenho um professor bem homofóbico, que trata mal eu e meu amigo por saber da nossa orientação e somos prejudicados quando vamos tirar alguma dúvida e ele não responde, com a forma mal educada que ele nos trata e até mesmo por termos que lidar com esse desconforto na sala de aula". Sobre alunos praticando o famoso "bullying" contra os colegas gays estamos cansados de ouvir, mas e os professores? Acredito que essa seja uma questão muito pouco discutida e válida de toda a atenção. Os educadores tem a obrigação, acima de tudo, de tratar todos os seus alunos com respeito e igualdade.

O caso de Ingrid não foi o único, mas os entrevistados trataram isso com tanta naturalidade que nenhum achou relevante se estender nesse assunto. Para a maioria, o preconceito de verdade, o que doía, era o vindo de casa. De 6 entrevistados, apenas 1, uma menina, não sofreu nenhum tipo de discriminação de seus pais. Em casos mais extremos, como foi o caso de Paulina, 18 anos, os pais chegaram a proibí-la de sair de casa. Não a deixavam sair nem para ir para a universidade. Perguntei porque ela achava que isso aconteceu: "Eles (os pais, em geral) colocam seus desejos e expectativas nos filhos, então se os filhos erram, é como se eles errassem, se os filhos conquistam algo, sentem como se eles conquistassem e se os filhos são gays, é como se parte deles também fosse". Mas por que ser gay é errado? "Porque eles desejam, fingem, viver em um mundo perfeito, onde não se enquadra ser homossexual".

É tácito que a religião é um aspecto de muita influência na formação da opinião sobre os homossexuais, mas no caso de Paulina, ela não acredita ter efeito sobre os pais, pois considera que eles sabem que a religião não deve ser seguida a qualquer custo e sob todos os seus aspectos. Já no caso de Mário, 25 anos, a questão da religiosidade é exatamente o que o impede de se abrir com seus pais. "Eles são muito religiosos e já são de muita idade, prefiro não tocar nesse assunto com eles". E não é só em casa que isso o afeta. Mário já deixou de frequentar sua igreja porque sofria muito preconceito dos outros participantes. "Uma vez já me empurraram de uma ladeira, pra machucar mesmo", "Colocavam o pé disfarçadamente para eu cair, cochichavam, algumas brincadeiras não eram tão agressivas, mas no final machucavam".

Os casos mais extremos que eu consegui detectar foram os de Ingrid e Mário, que, apesar de terem sofrido agressões físicas, não foram tão severas quanto as que se veem em outros locais do país. No geral, o preconceito se resume a cochichos e comentários "sem a intenção de ofender", uma coisa muito maquiada, disfarçada. No caso da igreja frequentada por Mário, utilizava-se muito de afirmações como "Mas a Bíblia diz isso…" para camuflar as ofensas. Mariana, 21 anos, nunca sofreu nenhuma afronta física direta, mas já gritaram coisas para ela e sua namorada quando estavam na praia, apontaram na rua e comentaram entre si, com evidente estranhamento. Comportamentos aparentemente inofensivos, mas que expressam uma forte discriminação.

Intrigada com essa situação das igrejas, fui entrevistar um católico praticante sobre o que ele achava dos homossexuais. A resposta desse menino, João, 15 anos, me surpreendeu: "Na minha concepção, a homosexualidade quebra a normalidade de vivência social. Não havendo reprodução, logo diminuição dos indivíduos da espécie e posterior extinção da mesma (isto à longuíssimo prazo). À curto prazo, é apenas mais uma imoralidade repugnante e pecaminosa". Sei que existem muitas pessoas religiosas que não são contra a homossexualidade, mas eu estava em busca justamente das que são, tentando entender seus motivos. Então insisti na questão e fiquei ainda mais surpresa: "É errado, pois não condiz com o padrão de normalidade. E sei que Deus repudia o homossexualismo (1Coríntios 6:9)".

Não acho que Deus repudie ninguém, pois se ele é bom como todos dizem, se ele perdoa, ele não vai odiar os homossexuais, até porque existem, comprovadamente, outros animais com possibilidades de serem homossexuais além dos seres humanos. Mas religião à parte, fui entrevistar jovens ateus e agnósticos. A resposta de Caroline me pareceu o que se espera ser pensado por todos os jovens de hoje: "Todos somos iguais. Somos todos da mesma espécie, todos merecem respeito". Talvez por ser uma opinião da maioria, isso tenha dado maior abertura para que os jovens tenham começado a aceitar sua sexualidade muito melhor.

Há algum tempo, muitos jovens começaram a experimentar relações com o mesmo sexo. Fala-se sobre ser "moda" virar homossexual ou bissexual, mas Paulina discorda: "O que virou moda foi o teste, a tentativa, a experiência". Mariana a acompanha: "Agora as pessoas podem se descobrir melhor. Se não tivesse essa heteronormatividade na sociedade, eu mesma teria sabido desde criança".

O que fazer, sendo assim, para possibilitar que as crianças se descubram, que a abertura se torne ainda maior? "O governo deveria fazer campanhas para conscientizar as famílias", diz Paulina, "O gay ainda é retratado apenas como o bobinho, o alegre, o palhaço, ainda não se mostra nenhuma imagem de família séria, feliz, de homossexuais. Talvez com esse apoio da mídia seria possível alcançar essa utopia". Mas não seria mais fácil criar mais leis de proteção ao homossexual, permitir o casamente gay, e afins? "Primeiro vem a conscientização e depois a lei. Se a maioria não aceita, esse pode não ser o momento, pois poderia causar problemas com a própria democracia. O Estado não pode gerar uma lei só porque é o certo, se o povo ainda não concorda, isso vai contra os princípios da democracia".

Fica claro que o principal problema é a conscientização da população a respeito do assunto, mesmo com movimentos para apoiar, o grupo LGBT's ainda não é levado a sério: "A parada gay aqui no Brasil é em forma de festa, isso tira um pouco da credibilidade", diz Paulina, "Eu acho que tem que ter festa sim, mas também uma manifestação mais séria, para chamar atenção e conscientizar de verdade".

Perguntei, então, sobre a opinião de cada um em relação a cidade de Natal como uma cidade preconceituosa ou não. "Natal se encaminha para uma boa aceitação", disse Paulina. Mariana concorda, diz "Natal é uma cidade muito conservadora, sem aceitação. A não ser que seja em um ambiente onde isso é aceito".

Nossa cidade ainda tem um longo caminho a fazer, mas ao menos na classe média e na minha faixa etária (aos quais restringi minha pesquisa) o progresso já é visível. Cada vez menos se vêem problemas relacionados à violência contra os homossexuais, sua aceitação já é muito boa e o que sofrem é, infelizmente, algo do qual todos nós podemos ser vítimas um dia, seja por andar com uma roupa diferente, um penteado diferente, sempre estamos sujeitos à essa violência maquiada da sociedade.

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