Poucas semanas atrás, se você me perguntasse se eu acreditava em pena de morte eu responderia, sem nem piscar, que sim, para um grupo restrito de seres humanos que eu considerava repugnantes e indignos de uma segunda chance, de sequer justificarem suas ações. Dentre eles, no topo da lista estariam os pedófilos.
Lendo uma coluna da minha jornalista preferida (ídola linda) Eliane Brum, deparei-me com o seguinte título: "Pedófilo é gente?". "Claro que não", pensei. Então comecei a ler e, em poucos minutos, essa mulher sensacional conseguiu mudar minha restrita opinião, conseguiu romper com todos os meus preconceitos. Quando terminei de ler, estava evidente para mim que pedófilo é gente sim, e não tem nada de errado em mudar de opinião, nem mesmo quanto a isso.
Em seu texto, Eliane entrevista pedófilos (homens e mulheres, presos e libertos) e podemos, pela primeira vez (pelo menos no meu caso) ver o lado deles. Muitos não se orgulham do que fazem, têm medo de sair da prisão e reincidirem, tem nojo de si.
Muitos (se não todos), e essa foi a parte que chamou mais a minha atenção, sofreram abusos quando menores e, adultos, tornaram-se os abusadores, ou casaram-se com abusadores, inconscientemente. Observando apenas sua situação quando crianças, eles seriam as vítimas, olharíamos para eles com ternura, compaixão, mas a partir do momento em que eles se tornam abusadores, tornam-se também monstros perante a sociedade. E ninguém tenta ver o lado deles, ninguém tenta ajudá-los, para corrigir a situação.
O sistema penitenciário do Brasil, como todos sabem, é precaríssimo, por isso os níveis de reincidência são tão altos. Com um acompanhamento médico, sessões de terapia, talvez fosse possível para esses monstros libertarem-se de seus fantasmas e voltarem a ser gente, mas é claro que isso não vai acontecer. E eles vão continuar abusando, sendo abusados, criando abusadores.
Essa coluna, como tudo o que Eliane escreve, é uma das melhores maneiras que eu encontro para aprender a me libertar de todos os meus preconceitos. É muito fácil julgar algo quando só se sabe um lado da história, é muito fácil manter uma opinião concreta quando não se analisa a situação por inteiro.
Muita gente se prende a esses preconceitos, penso eu, por vergonha, orgulho, de mudar de ideia, de parecer uma pessoas indecisa, porém não há nada de errado nisso. O mundo é tão grande, cheio de pessoas e histórias, estamos sempre aprendendo coisas novas, errado mesmo é ignorar esses aprendizados e não aplicá-los a sua vida. Errado mesmo é desconsiderar que cada caso é um caso e generalizar tudo.
Sempre me considerei uma pessoa muito aberta a receber e internalizar novas opiniões e posições sobre as coisas, sempre gosto de ouvir o que as pessoas tem a dizer sobre diversos assuntos, analisar e entender suas posições, para ver se isso acrescente ou muda algo na minha. Em relação aos pedófilos eu sempre fui dura. Não aceitava de jeito nenhum que eles poderiam ser pessoas normais, vítimas dos preconceitos sociais (inclusive dos meus), incapazes de mudar sozinhos, desamparados, sem ninguém para oferecer ajuda. Agora vejo que errei, e não tenho vergonha de errar, pois aprendi a enxergar o lado deles, e é assim que eu quero ser como jornalista, como repórter, uma pessoa capaz de ver e compreender todos os ângulos e sem medo de mudar de posição.
Os preconceitos que internalizamos, inconscientemente, são os mais perigosos. Esse último foi um exemplo forte, no entanto há também outro que eu gostaria de citar, causador de muita comoção no ano passado, muito difundido a partir da seguinte frase: "Bandido bom é bandido morto".
Sim, os índices de violência no país estão cada vez mais altos, sim, sair de casa está se tornando um perigo maior do que gostaríamos de admitir, sim, seria muito mais fácil matar todos os bandido de uma vez. Mas e o lado deles, alguém viu? Se eles são bandidos tem uma razão para isso. Quando você está em um ambiente precário, sem acesso à educação, saúde, trabalho, as opções são escassas. Para nós, classe média, com o futuro garantido ou pela escola ou pelos nossos pais é muito fácil dizer que "trabalho tem de sobra, se quisesse ia atrás de fazer algo honesto, como vender bala no sinal, distribuir folders, ser gari, ser pedreiro, qualquer coisa". Vou contar um segredo: não é fácil assim.
Muitas dessas profissões que são marginalizadas (sim, pois não recebem o devido reconhecimento) pela sociedade, como a de gari, exigem ensino médio completo para aplicação. Para nós é uma besteira, qualquer um pode completar o ensino médio. Para nós que não temos família para sustentar, que temos uma situação financeira estável e não precisamos parar de estudar para trabalhar em qualquer coisa e ajudar os pais a pagar as contas.
Eu acredito que quem cresce com gente honesta - e devido ao meu interesse enorme pela leitura sobre todo o tipo de vida em favela e contato que tive com pessoas mais simples, percebi que essas são as mais honestas e solidárias -, trabalhadora, e tem oportunidade, não vai virar bandido. Bandido você vira quando está precisando de dinheiro, quando precisa pagar as contas de casa, os remédios dos pais e avós, a comida. Claro, também viram aqueles que se envolvem com drogas, com "gente ruim". Mas será que virariam se tivessem tido outra oportunidade?
Quando assisti ao brilhante documentário de Mv Bill e Celso Athayde: "Falcão: meninos do tráfico", uma frase, em especial, dita por um deles me chamou muito a atenção (não é exatamente a frase falada por ele, mas um síntese com base nas minhas lembranças): "Não faço isso porque gosto, faço porque preciso, porque ninguém aceita me dar emprego e tenho que sustentar minha mãe". E somos nós que os colocamos nessas situações, quando não aceitamos dar emprego porque vêm de um lugar suspeito, porque têm cara de bandidos, porque temos preconceitos. Não preciso nem falar da culpa do governo, porque disso já reclamamos todo dia, preciso falar da nossa culpa, pois essa ninguém quer ver.
Todo mundo sabe - quem vai fazer ENEM está cansado de escrever isso em redações - que a educação é a chave de tudo. Talvez isso tenha se tornado algo tão corriqueiro de se discutir na classe média que não seja mais visto com tanta seriedade, tornou-se um fato óbvio, imutável, culpa do governo - e então votamos nas mesmas pessoas de novo. Sei que isso não cabe aqui, mas só gostaria de deixar registrado que o que pesa mais não é o presidente, mas os deputados, senadores, e afins -, não podemos fazer nada além de reclamar. Talvez possamos.
Num mundo mais solidário, as próprias pessoas podem fazer o que o governo ignora, só por compaixão, vontade de mudar. O trabalho voluntário está aí para isso, mas como aqui não é pré-requisito para as universidades, ou no mínimo incentivado, ele é ignorado. Quanto proveito tiraríamos se lembrássemos dele, se tomássemos as devidas atitudes.
Não estou falando de mudar o mundo sozinho, mas uma pequena parte dele, por que não? Se em seu bairro há uma escola pública, estude, prepare-se e por que não se voluntariar para dar uma palestra sobre a importância da educação? Sobre os perigos do mundo das drogas? Essas são coisas que já estamos cansados de ouvir, mas eles não, e talvez se uma pessoa de fora chegar e falar isso, e continuar aparecendo e falando sobre temas diversos, acordando eles para a vida, mostrando os caminhos (isso é trabalho dos professores, contudo sabemos que muitos não se empenham tanto nas escolas públicas, não sei se por considerarem perda de tempo, não sei se por falta de vontade de fazer a diferença ou se só por comodismo) eles aprendam, corram atrás, mudem. Se você puder mudar só uma cabeça, de 50 ou 100, já fez uma diferença, já mudou o futuro de alguém.
Em vez de tratar os bandidos como monstros, como fazemos com os pedófilos, por que não ajudá-los também? É muito fácil reclamar do Bolsa Família quando você passa o dia no computador, com ar-condicionado, escola, comida e muitas outras regalias. Sim, podem existir pessoas que se aproveitam dos benefícios, mas quantas não possuem uma real necessidade de fazer uso deles em prol de sua sobrevivência? E reclamar disso é difundir um preconceito internalizado, daqueles terríveis, criados quando sua situação está tão boa que você não entende que a vida de todos não é assim, nem que não é fácil alcançar esse patamar.
É preciso trabalhar, ser honesto, concordo, mas os bandidos, como já disse, não têm essas oportunidades, muitas vezes. Só por isso devemos marginalizá-los, destratá-los e odiá-los? Qual o nosso direito de fazê-lo e reclamar quando eles se posicionam diante de nós com esses mesmos pensamentos negativos direcionados, refletindo os nossos? A culpa é deles, é nossa, é do governo. Todos têm um pouco de culpa, o governo, claro, sempre mais. Com um sistema penitenciário melhor, como no caso dos pedófilos, tudo poderia ser mais tranquilo. Infelizmente as coisas não são assim ainda, mas não quer dizer que não podemos mudar.
Acredito que a libertação dos preconceitos e a busca da visão do lado do outro são as melhores maneiras de iniciar essa pequena mudança. Outra coisa que estamos cansados de ouvir, mas não deixa de ser verdade: "Se cada um fizer a sua parte, grande mudanças acontecerão". É a mais pura verdade. Parando de ter nossas opiniões como dogmas, aceitando as diferenças e dificuldades do próximo, aos poucos a sociedade vai se solidarizar, vai mudar, vai ser um lugar melhor para se viver.
Lembrem-se, por favor, não é errado mudar de opinião, não é errado ver o lado do monstro só porque a sociedade diz que ele não merece isso. Eu ainda não posso fazer minha parte como gostaria, mas posso escrever e difundir essa ideia, que pode estar certa ou errada, pode ser contestada e mudada, contudo, isso não a torna menos sincera, não tira dela suas boas intenções.
Então, não, bandido bom não é bandido morto, é bandido que foi pra escola, recebeu educação, oportunidade e não virou bandido, pois uma nova versão de seu futuro lhe foi apresentada. E pedófilo também é gente, gente diferente, com vontade de mudar, em busca de uma mão solidária a se estender e oferecer ajuda. E toda gente é gente, e todo preconceito faz mal. Ver os dois lado, analisar, interpretar e não apenas aceitar tudo o que a mídia, os pais, os professores, os colegas falam é a melhor maneira de mudar. É libertando-se dos preconceitos e se dando a chance de ter outras opiniões.
É assim que o ser humano evolui, aceitando e praticando novas ideias.












Isabela Maia, estudante de Jornalismo, 20 anos, apaixonada por filosofia, pedagogia, psicologia, literatura... Leitora compulsiva, viciada em videogames. Gosta muito de escrever e tenta fazê-lo todo dia; um dia pretende ajudar muitas pessoas com sua escrita.
0 comentários:
Postar um comentário