28 de fevereiro de 2015

Revolução no futuro

Minha linda edição acabou se desfazendo enquanto eu lia de tão antiga que era.
Acabei de ler um livro chamado Revolução no Futuro, de Kurt Vonnegut Jr. e essa leitura me levou a diversas reflexões. Sempre costumo dar muita atenção aos detalhes em livros que tratam de possíveis realidades futuras, porque elas são úteis para refletir até onde nossas ações podem nos levar. Pensando nisso e também inspirada nas minhas aulas sobre o cogito ("sujeito", "ente", "ser" de Descartes), resolvi escrever esse artigo relacionando as duas coisas.
Sinopse: Revolução no Futuro - Uma sociedade hiper-tecnologizada e industrializada, onde máquinas inteligentes realizam praticamente todo o trabalho produtivo, e a população em geral foi reduzida a um artigo inútil. Após duas revoluções industriais (a primeira tornando desnecessário o trabalho manual/muscular, a segunda tornando prescindível o pensamento de rotina), os mega computadores assumem as principais funções sociais e cuidam de pensar (muito mais eficazmente, para alguns) pelos homens. Vonnegut focaliza os acontecimentos do romance em Ilium, Nova York, futuro não muito distante. A cidade está dividida em dois reinos quase incomunicáveis: de um lado, a elite de dirigentes e engenheiros, de alto Q.I., reduzidos a meros vigilantes e reparadores de máquinas; do outro lado fica Homestead, onde vivem os homens comuns, agora condenados a escolher como ocupação ou o Exército ou os Grupos de Saneamento e Reparação.


Primeiramente, então, temos Paul Proteus, filho de um (se não O) dos maiores revolucionários da história. Graças a esse brilhante engenheiro, tudo agora era automatizado, o trabalho humano era quase desnecessário, apenas os mais inteligentes, de QI acima de 100 detinham empregos dignos, voltados, claro, ao âmbito científico tecnológico. 

Paul, homem brilhante, com trinta e poucos anos, ocupando o posto mais alto de sua região (gerente da Usina de Illiuns), agraciado com um QI muito alto, uma esposa dedicada e muito dinheiro tinha, além disso, tudo o que qualquer homem poderia querer: poder e reconhecimento. Mas ele não estava contente. Nem um pouco. Ao longo da narrativa acompanhamos o mais novo  dilema da vida dele: como sair dessa vida entediante e poder ser quem ele realmente é. 

Ele será influenciado por seu amigo rebelde revolucionário Finnerty, que largou tudo e agora vive como uma espécie de fugitivo, organizando uma revolução contra as máquinas. Paul sente-se muito bem quando vê que outras pessoas também estão insatisfeitas com o sistema como ele, e se anima a querer fazer algo contra o sistema, largá-lo, ser o verdadeiro Paul.

Considerando agora essa última questão e levando em conta que um sujeito é aquilo que suas experiências fazem dele, Paul percebe que o ideal de vida que ele tinha (uma vida simples, no campo, vivendo do trabalho suado de suas próprias mãos) não era tão bom, não se aplicava ao que ele era, mas ao que ele queria ser. Paul era um rico engenheiro acostumado com uma vida cheia de regalias, e apesar de admirar as pessoas que viviam de modo mais simples, ficou claro, depois de um único dia, que não conseguia viver como elas. Isso, para mim, foi uma importante demonstração de que nem sempre somos quem achamos ser. 

O autor nos mostra isso de diversas maneiras, sendo a principal delas por meio de Paul. Contudo, também mostra que às vezes não podemos ser quem realmente somos, pois não encontramos espaço para isso. A sociedade em questão é muito rígida, as pessoas devem seguir as regras, se comportar de determinado modo, caso contrário, serão taxadas como um risco, possíveis rebeldes, cometedores de atentados. Isso, claro, é um trabalho feito por máquinas, no entanto, como comenta um polícial, elas não deixam de estar sempre certas.

Em outro âmbito dessa mesma questão do sujeito, integrando-a à questão da alienação (impossível ser inexistente em uma sociedade como a em pauta) temos os cidadãos comuns, bem como, de certo modo, os poderosos, constantemente submetidos a mensagens subliminares tradicionais (termo aplicado por também estarem presentes em nossa realidade), transmitidas pelos meios de comunicação. Por meio delas aprendem a se contentar com o que tem. Os de QI mais baixo sentem-se privilegiados, pois dá trabalho ser engenheiro, estudar, é tudo muita responsabilidade. Os engenheiros, em contrapartida, sentem-se como donos do mundo, de extrema importância para o funcionamento de tudo. Ao longo da narrativa, contudo, torna-se cada vez mais perceptível, por meio de episódios isolados propositalmente (creio eu) espalhados pelo autor, que, na verdade, nenhum deles tem importância alguma. Todos, até os melhores engenheiros como Paul, acabam sendo apenas peças de um sistema muito maior e mais poderoso. Sendo assim, essas peças acham que são alguém, que representam algo, mas na verdade, é tudo uma ilusão, um erro na atribuição de sua subjetividade.

No decorrer do livro, sendo submetido a situações adversas, a personalidade de Paul muda aos poucos, ele finalmente encontra espaço para descobrir quem é e perseguir novos ideais. Ele continua confuso, mas um pouco mais objetivo em relação a quem é, quem quer ser e quem se torna. Forçado por seus colegas revoltosos e, ao mesmo tempo, por seus patrões em um plano estratégico, Paul acaba vendo-se líder de uma revolução contra toda a maquinaria e suas implicações na vida social. Paul decide abraçar a situação e leva a revolução até o fim, apesar de não ter papel realmente importante além de ser uma figura de representação. O importante nisso é que ele mudou, ele, por fim, descobriu suas motivações, suas razões e se sentiu realizado, completo, ao morrer pela causa pela qual lutou.

Portanto, as verdadeiras necessidades de alguém, mesmo que influenciadas por contextos sociais que tentam determinar um padrão para elas, só podem ser determinadas pela própria pessoa. Mesmo que Paul tenha se enganado com relação ao estilo de vida que preferia, ele sempre teve certeza de que não estava contente com a vida que levava, necessitava de alguma mudança. Nem sempre acertamos de primeira, é preciso tentar, experimentar, para chegar às certezas, para alcançar os objetivos.

A revolução, como é esclarecido no final, não se tratava de mudar o mundo, mas sim de tentar, de mostrar que pelo menos haviam tentado, de expressar sua infelicidade com o que estava acontecendo. E mesmo que tudo voltasse a ser exatamente como estava antes, não importava, pois eles haviam tentado. Achei uma mensagem final muito interessante, ela nos faz refletir. Às vezes nem sempre as coisas saem como pensamos, mas não quer dizer que não saíram como deveriam, ou que o esforço foi em vão. O importante é tentar, pelo menos tentar, porque isso é algo que ninguém pode tirar de você.

Para mim é muito importante sempre refletir sobre o que leio por causa disso: nem sempre os significados ficam explícitos. Pode ser que essa conclusão seja particularmente minha, mas o interessante de colocá-la em discussão é descobrir se há outras. Em um livro que fala sobre a vida mecanizada no futuro, consegui encontrar discussões sobre a formação do sujeito, o poder da alienação, a importância de tentar e nunca desistir dos seus objetivos. Talvez esse nem tenha sido o objetivo do autor, mas, como disse, estou sempre a procura dos detalhes ocultos nesse tipo de romance.

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