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Poucos livros marcam uma pessoa. Alguns são só histórias, que entretém naquele momento, mas logo são esquecidos. Outros são importantes, especiais, sempre serão lembrados com carinho, relidos até. Mas poucos são aqueles que mudam o indivíduo, desde o comportamento ao modo de pensar e ver o mundo ao redor. Posso garantir que Ensaio sobre a Cegueira tem esse efeito sobre as pessoas.
Nunca dei tanto valor à minha visão quando dou hoje, após essa leitura. No entanto, essa brilhante obra de José Saramago não fala só sobre a cegueira, na verdade, diante da minha perspectiva, esse é apenas um assunto superficial na história, com a faísca que dá início a um incêndio de grandes proporções, sem ela não haveria incêndio, mas uma vez que ele arde e queima tudo ao seu redor, mal é lembrada essa precursora.
O filme reconstitui a narrativa da melhor maneira possível, contudo, na minha opinião não consegue captar a essência da história, apenas superficialmente. O que eu gosto em um livro é perceber sozinha as pistas, os detalhes, as coisas implícitas e, infelizmente, o filme não deixa espaço para isso, ele representa literalmente o conteúdo do livro. Isso não faz dele um mau filme, é muito bom, para ser sincera, sem falar na trilha sonora maravilhosa composta pelo grupo musical Uakiti. Mas não é tão bom quanto o livro.

Um dia normal na cidade. Os carros parados numa esquina esperam o sinal mudar. A luz verde se ascende, mas um dos carros não se move. Em meio às buzinas enfurecidas e à gente que bate nos vidros, percebe-se o movimento da boca do motorista, formando as palavras: Estou cego.
Assim começa a eletrizante história de Saramago, deixando o leitor intrigado, sedento por mais, a partir da primeira página. E isso não muda ao longo do livro. A cada nova situação apresentada, o leitor se pergunta o que irá acontecer e muitas vezes se surpreende, pois as pessoas se transformam com a cegueira branca, elas deixam de ser, como mostram suas atitudes.
Arthur Nestrovski, diretor artístico da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo, escritor da "orelha" do livro, caracteriza o romance como "Impressionante" e "comovedor", "uma visão das trevas, uma viagem ao inferno, e a história de uma resistência possível à violência em tempos escuros". Ele também lembra que trata-se de um livro sobre "o amor, e sobre a solidariedade". Nos apresentando a sentimentos em formas diferentes do que estamos acostumados, o autor nos mostra até onde se está disposto a ir em nome do amor, de uma maneira sútil, nada melosa. Além disso, de modo bem realista, ele demonstra a importância da compaixão, da solidariedade e do trabalho em equipe.
Você se vê frente a questões de ética, ou virtude, como diria Sócrates, constantemente e é levado a fazer diversas análises, como o fato de as coisas só se apresentarem verdadeiras (as pessoas serem inteiramente honestas consigo e com os outros) quando ninguém pode ver e as implicações disso em nosso cotidiano, ou seja, será mesmo que ninguém vive honestamente? Será que ser honesto e humano significa ser ético, mesmo que isso implique a realização de ações consideradas "erradas"?

Um detalhe interessante na narrativa, muito engenhoso do autor: nenhuma das personagens tem nome. E, ao longo do tempo, isso não importa, eles mesmos admitem. "Dentro de nós há uma coisa que não tem nome, essa coisa é o que nós somos", diz uma das personagens. Esse detalhe complementa a mensagem do romance, nos levando a mais reflexões, como: quem seria você se ninguém pudesse te ver? Seria o que está acostumado a ser, ou talvez alguém diferente, que, no íntimo, nunca teve coragem de ser?
Espero que tenham gostado! Acredito ser essencial para minha carreira de jornalista saber escrever boas resenhas, por isso ainda pretendo escrever muito mais textos do tipo! C:











Isabela Maia, estudante de Jornalismo, 20 anos, apaixonada por filosofia, pedagogia, psicologia, literatura... Leitora compulsiva, viciada em videogames. Gosta muito de escrever e tenta fazê-lo todo dia; um dia pretende ajudar muitas pessoas com sua escrita.
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