28 de outubro de 2015

Males nossos


Acordar. Tomar café. Escovar os dentes. Estudar. Tomar banho. Trocar de roupa. Almoçar. Escovar os dentes. Ir para a universidade. Voltar para casa. Jantar. Escovar os dentes. Tomar banho. Entrar na internet. Dormir.

Acordar. Café. Dentes. Estudo. Banho. Roupa. Almoço. Dentes. Universidade. Casa. Jantar. Dentes. Banho. Computador. Dormir.

Manhã. Tarde. Noite.

Dia a dia.

O tempo corria, os meses passavam e eu continuava mergulhada no meu turbilhão interior, incapaz de emergir para sentir que todas as ondas que quebravam sobre meu corpo eram exatamente iguais. Imersa em minhas profundezas eu buscava insignificâncias; o menor sinal de que uma onda produziu uma bolha em sua espuma a mais que a última era suficiente. Era uma prova de que eu poderia continuar mergulhada em mim, porque eu não estava no modo automático, estava aproveitando cada segundo.

Foi quando assisti a outro se afogar em si mesmo que percebi o perigo que corria. Foi quando aconselhei e me vi consumida pela hipocrisia que decidi aceitar. Arrastei-me, fraca, até a margem e quando olhei para trás precisei admitir: era a mesma onda que se quebrava infinitamente, e cada bolha distinta era uma ilusão. Não entendia como pude deixar passarem tantas estações. Só que o arrependimento nunca curou feridas.

Ainda existem feridas?

Vejo telas, mas não vejo as pessoas por trás delas. Vejo seus rostos, sua aparência, mas por uma tela não se conhece a essência. Pixels podem formar números, imagens, palavras, porém não podem formar pessoas reais, pois nunca serão reais, e todos aqueles escondidos atrás das telas são virtuais, são imaginários de si mesmos.

Imaginam vidas perfeitas, constroem suas vidas perfeitas. Os pixels são seus instrumentos. Os outros são seu público. A vida é um palco, uma peça, uma invenção.

Nesse mundo não existe tristeza, a não ser que a tristeza o faça parecer melhor, e esteja interligada à compaixão por determinado objeto (pessoa, causa). E o tempo passa, passa, passa... O transe é eterno, não há estalar de dedos capaz de quebrar essa hipnose. Ela cega a rotina, ilude, faz parecer que é tudo diferente, especial. Ela cria acontecimentos, e apaga aqueles que não pode alcançar.

Se não demonstro, não conto, não sinto? Sinto. Vivo. Vejo. Viajo.

Impossível comoção se formou no momento em que a finitude e a falsidade se encontraram. Do oceano interior saltavam interrogações em forma de pingos, que se transformaram em ondas, que destruíram as certezas em um tsunami de subjetividade. Se o tempo me contou errado agora é tarde, e ele passa rápido, mais do que nunca. O lamento afoga, as lágrimas tentam, a luz cega, mas a parede cobre o fim da trilha, indestrutível.

Indestrutível?

Hoje a subjetividade domina, me domina, te domina, nos domina. Domina. Denomina. Detona, mina. E todos a condenam em suas próprias pessoalidades. E todos a nutrem com seu ser. Se dizer não nos basta que dirá gritar; não há solução sem sociedade.

Imagine abrir os olhos e, transtornado, perceber: não há sociedade.

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