Acordar. Tomar café. Escovar os dentes. Estudar. Tomar banho. Trocar de
roupa. Almoçar. Escovar os dentes. Ir para a universidade. Voltar para casa.
Jantar. Escovar os dentes. Tomar banho. Entrar na internet. Dormir.
Acordar. Café. Dentes. Estudo. Banho. Roupa. Almoço. Dentes.
Universidade. Casa. Jantar. Dentes. Banho. Computador. Dormir.
Manhã. Tarde. Noite.
Dia a dia.
O tempo corria, os meses passavam e eu continuava mergulhada no meu
turbilhão interior, incapaz de emergir para sentir que todas as ondas que
quebravam sobre meu corpo eram exatamente iguais. Imersa em minhas profundezas
eu buscava insignificâncias; o menor sinal de que uma onda produziu uma bolha
em sua espuma a mais que a última era suficiente. Era uma prova de que eu
poderia continuar mergulhada em mim, porque eu não estava no modo automático,
estava aproveitando cada segundo.
Foi quando assisti a outro se afogar em si mesmo que percebi o perigo
que corria. Foi quando aconselhei e me vi consumida pela hipocrisia que decidi
aceitar. Arrastei-me, fraca, até a margem e quando olhei para trás precisei
admitir: era a mesma onda que se quebrava infinitamente, e cada bolha distinta
era uma ilusão. Não entendia como pude deixar passarem tantas estações. Só que
o arrependimento nunca curou feridas.
Ainda existem feridas?
Vejo telas, mas não vejo as pessoas por trás delas. Vejo seus rostos,
sua aparência, mas por uma tela não se conhece a essência. Pixels podem formar
números, imagens, palavras, porém não podem formar pessoas reais, pois nunca
serão reais, e todos aqueles escondidos atrás das telas são virtuais, são
imaginários de si mesmos.
Imaginam vidas perfeitas, constroem suas vidas perfeitas. Os pixels são
seus instrumentos. Os outros são seu público. A vida é um palco, uma peça, uma invenção.
Nesse mundo não existe tristeza, a não ser que a tristeza o faça parecer
melhor, e esteja interligada à compaixão por determinado objeto (pessoa,
causa). E o tempo passa, passa, passa... O transe é eterno, não há estalar de
dedos capaz de quebrar essa hipnose. Ela cega a rotina, ilude, faz parecer que
é tudo diferente, especial. Ela cria acontecimentos, e apaga aqueles que não
pode alcançar.
Se não demonstro, não conto, não sinto? Sinto. Vivo. Vejo. Viajo.
Impossível comoção se formou no momento em que a finitude e a falsidade
se encontraram. Do oceano interior saltavam interrogações em forma de pingos,
que se transformaram em ondas, que destruíram as certezas em um tsunami de
subjetividade. Se o tempo me contou errado agora é tarde, e ele passa rápido,
mais do que nunca. O lamento afoga, as lágrimas tentam, a luz cega, mas a
parede cobre o fim da trilha, indestrutível.
Indestrutível?
Hoje a subjetividade domina, me domina, te domina, nos domina. Domina.
Denomina. Detona, mina. E todos a condenam em suas próprias pessoalidades. E
todos a nutrem com seu ser. Se dizer não nos basta que dirá gritar; não há
solução sem sociedade.
Imagine abrir os olhos e, transtornado, perceber: não há sociedade.











Isabela Maia, estudante de Jornalismo, 20 anos, apaixonada por filosofia, pedagogia, psicologia, literatura... Leitora compulsiva, viciada em videogames. Gosta muito de escrever e tenta fazê-lo todo dia; um dia pretende ajudar muitas pessoas com sua escrita.
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