14 de setembro de 2015

Intolerância: o verdadeiro ópio do povo

(Tolerância não significa que nós concordamos, ou ignoramos um ao outro. Significa: nós abrimos espaço para a opiniões diferentes, erradas, interessantes, estranhas)


Às vezes certas coisas parecem tão claras para mim que não entendo como as outras pessoas não conseguem percebê-las também. Como a intolerância. Se eu pudesse escolher uma só coisa no mundo para mudar, acho que eu acabaria com a intolerância, pois creio que esse seria o caminho para extinguir a maioria das outras mazelas do nosso planeta.

Antes de mais nada, gostaria que todos fossem capazes de ter em mente que existem mais de 7 bilhões de pessoas no mundo. Sete bilhões de pessoas diferentes, criadas em culturas diferentes, com valores diferentes. Não existe ninguém igual. O mundo é grande e diverso demais para admitir a igualdade completa. Não existe certo ou errado. E admitir isso não significa negar  seus próprios valores, apenas significa ser consciente da realidade.

O problema – ao menos o principal, ao meu ver – com a intolerância, é que ela impede as pessoas de serem empáticas umas com as outras, impede as pessoas de olharem ao redor, questionarem e, acima de tudo, admitirem seus erros. Portanto, essas pessoas se atém – muitas vezes – de pesquisar sobre o assunto, talvez por medo inconsciente de se descobrirem erradas; entretanto, quando o fazem, é com os olhos da intolerância que enxergam os dados, tendo-os como falsos uma vez que contrariem suas expectativas.

Acredito que grande parte da intolerância do mundo vem do fanatismo, pois ele cega a razão. E isso se aplica a todo o tipo de coisa, como o racismo, que vem do fanatismo pela própria cor; como o fanatismo por um time de futebol, que gera brigas e morte entre torcedores. Mas não podemos esquecer do fanatismo por seus próprios valores. Muitas pessoas, tão crentes e seguras de si mesma que são – o que não é nem um pouco errado – esquecem, às vezes, que é possível que existam opiniões diferentes, e isso não significa que um dos lados estará certo ou errado.

Discutir, conhecer, aprender, tudo isso é muito saudável, implica ampliar sua visão de mundo, mudar. É possível ser tolerante sem deixar de acreditar em seus próprios valores, só é preciso ter em mente que cada um tem seus motivos para acreditar em algo. Vou dar um exemplo bem banal, de algo que em nossa sociedade poderia causar repúdio, mas que em outras culturas pode ser aceito: bater nos filhos para educar. Há um tempo, o Brasil começou a difundir a ideia de que este comportamento é primitivo e incorreto. Que seja. Todavia, existem pessoas por aí, de culturas diferentes, que não importa o que seja dito não deixarão de acreditar que esse é o modo mais efetivo de educar. Então elas devem ser odiadas? (Não partirei para o âmbito da educação, psicologia, etc, porque não cabe aqui e, além disso, junto a eles a tolerância e compreensão seriam necessárias para conseguir mudar o comportamento de uma sociedade).

Sem a cegueira causada pela intolerância e pelo fanatismo, talvez as pessoas conseguissem perceber que todos são iguais independente da cor, do país, da cultura. Somos todos seres humanos, pensamos, sentimos, vivemos. Estamos todos aqui tentando levar um dia após o outro. Para que perder tempo pregando que existem uns superiores a outros quando isso não é verdade?

É assim, inclusive, que pensam muitos ateus. Há pessoas que acreditam que a falta de religião as torna superiores, que o ceticismo torna você melhor. É uma opinião extrema, e é desse extremismo que nasce a intolerância desses ateus para com os religiosos. Então, muitas disputas de ideias se iniciam na internet, muito ódio é disseminado, e tudo por causa da intolerância. E o processo também ocorre no sentido contrário, quando pessoas tentam impor sua religião. Bom, nesse caso vale ressaltar que religião é algo muito pessoal e não adianta tentar impor uma crença a ninguém, pois isso, na maioria das vezes, só faz o próximo sentir repúdio por essa ideia. 

Não é errado ser religioso ou não ser. É até interessante conviver com essas diferenças. E não é preciso ter medo de ser diferente, essa é a melhor parte. O medo, infelizmente, é um dos fatores que geram esse sentimento tão negativo, creio.

O racista odeia pessoas de outra cor e, no seu interior, têm medo de ser como elas. Os fanáticos têm medo de que algum dia o seu objeto de adoração se encontre em situação de desfavor. Os religiosos têm medo da descrença. Os ateus têm medo de se tornarem religiosos. Os homofóbicos temem se tornarem gays. A maioria das pessoas, ao discutir sobre ideias ou valores importantes para si, têm medo de perder a discussão, pois isso, talvez, signifique que o que consideram inaceitável possa, na verdade, não ser.

Então o medo é convertido em intolerância, e esta em raiva, ódio. As pessoas passam a se juntar em grupos, a brigar, a realizar atentados, a matar. Tudo em prol de sua crença, que alimentam com adoração doentia. E se esquece da fluidez da vida, de que nada é absoluto, de que não existem certezas, porque está tudo na mente, e o que é para mim, não é o mesmo para você.

O sentimento de pertencer a um grupo, decerto, é grande responsável por tanta negatividade. O filme A Onda mostra de maneira maravilhosa o que as pessoas se dispõem a fazer em nome de uma causa que acreditam, o que se dispõem a fazer só para pertencer a algo. É natural do ser humano essa necessidade de viver em grupo. Desentendimentos também são. Todavia, não pregam tanto que já estamos muito mais avançados e racionais hoje e quase nada compartilhamos com nossos ancestrais? Por que, nesse caso, estimular essa intolerância entre os grupos e não a harmonia?

Em um passado remoto era aceitável que tribos se desentendessem. Em um mundo tão conectado, globalizado, como dizem, no qual não há mais distâncias, esses comportamentos não fazem mais sentido. Somos racionais o suficiente para saber que não se deve matar, porque a lei assim o diz e a sociedade com isso concorda. Somos racionais também para perceber que não existem pessoas iguais. Deveríamos ser, portanto, racionais o suficiente para saber que isso não é um problema.

Em resumo, a intolerância nasce do extremismo nas crenças e causa inúmeras desgraças no mundo. As pessoas precisam parar de ser infantis e achar que todos precisam ter a opinião igual à sua, pois nunca será assim, e enquanto existir gente tentando forçar que assim o seja, existirá ódio no mundo, porque intolerância gera ódio, não amor.


A solução é tão simples. Se uma pessoa age de modo que você acredita não estar correto, se ela possui uma opinião diferente da sua, veja se ela está aberta a novas ideias, e se estiver, tente dialogar, compreender os seus pensamentos. Se não funcionar, você pode continuar com a consciência limpa, pois fez sua parte, tentou. Mas não tenha ódio dessa pessoa só porque ela faz algo que você acha errado, simplesmente não repita a ação. Se para você é errado ser religioso, não seja. Se é errado ser homossexual, não seja. E quanto às pessoas que são, é a vida delas, que não lhe afeta, deixe-as. Sejamos tolerantes.

PS.: Estou aberta a diálogos sobre o assunto c:
PSS.: Só para deixar bem claro, o que eu quero dizer é que o mundo é muito grande e seria proveitoso não ver tudo só sob sua própria ótica, mas também procurar ver através dos olhos dos outros. Eu também tenho uma visão e valores, todavia, até em razão da profissão que escolhi, busco sempre entender que o que eu sei não é definitivo, e posso mudar de ideia a qualquer momento.

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