11 de julho de 2015

Aprendemos a ler errado!

Ao final da postagem indico 3 livros para quem também gostaria de começar a explorar os clássicos mas não quer pegar algo "difícil demais" a princípio.

Após um ano inteiro sem poder ler direito, porque tinha que estudar o tempo todo para passar no ENEM, esse ano decidi ler o máximo que pudesse. Mas não qualquer livro. Sem querer ofender os livros “comuns”, esse ano decidi que queria focar em clássicos. Geralmente as pessoas os admiram, falam muito deles, contudo não os leem. Já dizia Mark Twain que um clássico é um livro que todos admiram, porém ninguém lê. Eu sempre pensei que se os clássicos se tornaram tão importantes é porque deveriam ser livros incríveis, entretanto, ainda não tinha tido coragem de ler. Então, decidi que custe o que custasse, esse ano eu tentaria ler quantos clássicos conseguisse.

O ano ainda não acabou, tenho muito tempo para ler ainda mais clássicos, mas quis relatar logo que não estou me arrependendo nem um pouco. O que muitas vezes permeia nossos pensamentos preocupados é o seguinte: “A linguagem deve ser muito difícil, não vou entender nada!”. Não poderia estar mais equivocado. É que na escola a gente tem contato com Machado de Assis (amo) e acha que todo escritor vai ser “complicado” na escrita como ele é. Para minha surpresa, não são. Ainda não acho Machado a leitura mais simples do mundo, entretanto, li, por exemplo, Os Miseráveis em dez dias e não tive dificuldade nenhuma. Foram as mais deliciosas e perfeitas 1509 páginas da minha vida! Estou escrevendo uma resenha de recomendação sobre ele, que provavelmente será publicada na minha coluna no site O-Livreiro (ela estréia essa terça!), todavia, por ser um livro tão bom, não acho que minhas simples palavras mortais serão suficientes para descrever sua magnificência.

Além dele, já li Madame Bovary, Ensaio sobre a Lucidez (não sei se é considerado um clássico, mas eu amo José Saramago), Fahrenheit 451, A Metamorfose, Alice no País das Maravilhas (de novo, não tenho certeza se é um clássico, mas com certeza deveria ser, mesmo que seja uma história “infantil”). Minha proposta era ler o máximo que pudesse, por enquanto esses foram os que consegui, os outros livros que li não são considerados clássicos, são apenas meros mortais, mas também muito bons. É que além de ler clássicos, também decidi que essa ano só leria livros que gostasse desde o princípio. Isso é difícil de acontecer, eu sei, mas estou tentando me livrar de alguns tabus literários.

O que mais tem me ajudado a encontrar clássicos, é a Coleção Saraiva de Bolso. Não tenho muitos, mas sempre que vou à livraria procuro adquirir mais. Dez reais por um livro tão bom é uma pechincha! Como comecei a adquiri-los muito recentemente, ainda não tive o prazer de ler todos, entretanto, recomento para todo aquele que também estiver interessado em tentar essa experiência e não quiser gastar muito. São mais de 170 títulos maravilhosos, e o melhor é que ainda estão sendo lançados outros!

Achei uma iniciativa ótima da Saraiva para incentivar os jovens a lerem mais clássicos, pois é algo realmente em falta. Portanto, quem gosta muito de ler deveria deixar um pouco de lado as leituras usuais e tentar explorar esse novo universo. Se não se sentir preparado tudo bem, isso acontece com todo mundo. Às vezes eu começo um livro e, após algumas páginas penso: “Acho que ainda não estou pronta para essa leitura, melhor esperar um pouco mais”. Isso, inclusive, é algo positivo, pois garante que quando você estiver pronto, sua leitura será muito mais proveitosa. Não gosto da ideia de terminar um livro “por obrigação”. Sim, muitas vezes pode ser surpreendente e acabar sendo bom, mas outras vezes não é, e o tempo que você levou para terminar a leitura (certamente maior que o usual, já que não estava sendo uma atividade prazerosa), poderia ter sido gasto com um ou dois outros livros muito bons.

Em uma disciplina que paguei esse semestre, aprendi coisas valiosas sobre a leitura. Por exemplo, se você não está interessado, não faz proveito nenhum; é como ler sobre as bacias hidrográficas da Amazônia sem ter vontade de saber sobre isso. Você passa o olho, mas não absorve. É bom ler quando a gente tem um objetivo, e no caso dessas leituras selecionadas por nós mesmos, o objetivo é o prazer de ler algo bom, relaxar, esquecer o mundo ao redor e mergulhar de cabeça na história. É preciso parar com esse preconceito de que “não pode não terminar o livro”. Pode sim. Do mesmo jeito que você pode parar um filme, mudar de canal ou sair da sala do cinema, se não gostar. A leitura é pra ser uma coisa boa, não ruim.

Inclusive, acho que é por causa dessa sensação de obrigação – principalmente passada pela escola, quando nos “obrigam” a ler os clássicos da literatura brasileira – que muitos jovens criam aversão à leitura. Não se pode, de jeito nenhum, exigir que uma criança no sétimo ou oitavo ano tenha competência para ler Machado de Assis! O gosto pela leitura deve começar desde cedo, e para indicar leituras mais sérias, é preciso antes que o jovem tenha passado por muitas experiências literárias para poder aproveitar o mínimo de uma leitura mais complexa. Falo isso baseada em mim mesma. Se não tivesse devorado todos os volumes de Meg Cabot quando criança, não teria aprendido o quanto ler é bom, e talvez não me interessasse por conhecer leituras mais complexas hoje.

As escolas precisam perceber que essa forma de incentivar a leitura está totalmente equivocada. Eles querem criar grandes leitores, mas não querem deixar que eles comecem com leituras simples, querem pular etapas. O melhor é incentivar as leituras que os alunos querem fazer, até certa idade, promover atividades relacionadas, por exemplo pedir que cada um conte sobre o que está lendo a cada determinado período de tempo. Assim, em vez de criar desgosto pelas aulas de literatura, os alunos podem passar a ansiar por elas.

É muito inocente da parte desses educadores pensar que os alunos realmente leem os livros que nos são indicados para comprar no início de todos os anos. Não nego que alguns devem ler, mas quantos? Vou usar minha antiga escola como exemplo. Todo ano, precisávamos comprar 3 livros clássicos indicados na lista de material, que supostamente seriam utilizados nas aulas de literatura. Nos 3 anos que estudei lá, só uma professora nos fez realmente ler os livros. E nem foram todos, cada um podia escolher qual queria ler e depois seríamos avaliados, entretanto essa não é a questão. O ponto é que ela encontrou uma maneira de nos fazer ler – a prova – e nós lemos. Como no caso não eram leituras tão complexas, foi tirado determinado proveito, entretanto, a maioria o fez por obrigação, e essa palavra, obrigação, não deveria estar associada à leitura.

Lê-se por prazer. Prazer de aprender, de poder viajar o mundo inteiro sem sair da poltrona, de conhecer um mundo novo. A obrigação gera a aversão. Isso qualquer um pode perceber. Ao ser obrigado a fazer algo, a vontade de repetir a ação diminui em dez vezes, no mínimo. Por isso, escolas, não obriguem seus alunos a ler, ensine-os a gostar de ler.

Mas a escola não é a única culpada, os exemplos de casa também influenciam. Vejo muitos pais querendo que seus filhos leiam muito, quando eles mesmos não pegam em um livro. Não considero exatamente hipocrisia, pois sei que os pais só querem o melhor para seus filhos, entretanto, sem esse exemplo, fica mais difícil, apesar de possível. Meu pai, por exemplo, é um grande leitor, e se não fosse por ele talvez eu não gostasse tanto de ler. Contudo, se ele não tivesse deixado que eu evoluísse sozinha com minhas leituras, hoje não teria prazer em procurar clássicos para ler. Tenho certeza absoluta disso porque quando eu era mais nova ele insistia com todas as forças para que eu lesse Monteiro Lobato. Hoje eu nem chego perto de nada que envolva esse homem. Sei que ele foi importante, mas a sensação de obrigação, para mim, está intimamente ligada a ele e suas obras. Comigo foi só um, mas com outras pessoas podem ser mais, e mais, e mais.

Portanto, para evitar mais traumas, precisamos nos desprender de todos os tabus que envolvem a leitura por prazer (porque a leitura para trabalhos, etc. Envolve aspectos totalmente diferentes):

Ninguém é obrigado a ler um livro até o fim se não está gostando. Pode-se até insistir um pouco mais para ver se melhora, o que é possível, mas caso contrário, pare, vá procurar algo que gosta, você não está cometendo um crime por causa disso. Parar de ler não significa que no futuro você não possa retomar a leitura, dessa vez mais preparado, e aproveitá-la ainda mais.

As crianças e os adolescentes não precisam ler clássicos para se tornarem bons leitores. Ao contrário, eles precisam ler o que gostam para começar a apreciar a atividade.

Não se pode obrigar ninguém a ler nada. Isso só vai fazer a pessoa criar aversão à leitura.

O gosto e a evolução da leitura ocorre com o tempo, e cada um tem seu próprio ritmo. Se uma criança de 10 anos lê e aproveita Machado de Assis não quer dizer que o mesmo ocorrerá com todos os outros. Os pais e as escolas precisam entender isso.

Por fim, para quem gostaria de ingressar também nesse universo dos clássicos, vou indicar alguns que já li e são de ótimo aproveitamento, até porque se inserem muito bem no que estamos vivendo hoje.

1984, de George Orwell. Esse anda muito conhecido, pelo que percebi, por suas semelhanças cada vez mais gritantes com o mundo informatizado. Discute até onde vai o controle que os meios de comunicação têm sobre nós, em relação à observação de nossas atividades (o que podemos relacionar com as redes sociais de hoje) e ao controle de nossas ações. Vale adicionar que foi desse livro que surgiu a ideia para a criação do programa Big Brother.

Fahrenheit 451, de Ray BradBury. É sobre uma realidade alternativa, em um futuro talvez não tão distante, no qual a massificação se tornou tão demasiada que os livros foram proibidos. Com a evolução da tecnologia, todos os edifícios passaram a ser à prova de fogo, e o trabalho dos bombeiros se inverteu. Em vez de apagar incêndios, eles os criam. Para queimar livros. O modo como a situação chegou a esse ponto foi o que mais me chamou a atenção no livro, pois é uma razão muito próxima da nossa realidade, que talvez possa até ser possível.

Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley. Definitivamente, esse é um dos meus livros preferidos no mundo inteiro. A edição que eu tenho está literalmente aos pedaços (se rasgou enquanto eu lia, pois era muito antiga), mas isso não me impediu de aproveitar ao máximo a perfeição com a qual esse livro foi escrito. É uma história perfeitamente plausível que conta sobre uma realidade paralela na qual as pessoas são criadas em laboratório (o processo é explicado em detalhes no próprio livro), moldadas e alienadas de modo a serem completamente felizes. E se a tristeza bater em algum momento, é só tomar uma dose de soma e tudo fica bem de novo. O que eu mais gosto nessa obra é a maneira como Huxley conseguiu construir esse mundo de uma forma tão detalhada e possível de ser realizada. Quando eu estava lendo, muitas dúvidas me apeteciam, “por que isso não é assim? Não seria muito melhor?” e parece que ele conseguia ler minha mente, pois para toda pergunta, ele aparecia com uma resposta perfeitamente compreensível. É um livro que todos deveriam ler, com certeza.

0 comentários:

Postar um comentário

 
♥ Theme por Maidy Lacerda, do Dear Maidy, exclusivo para Metamorfisa © 2015 • Todos os direitos reservados • Topo