Ao final da postagem indico 3 livros para quem também gostaria de começar a explorar os clássicos mas não quer pegar algo "difícil demais" a princípio.
Após um ano inteiro sem poder ler direito, porque tinha que estudar o tempo todo para passar no ENEM, esse ano decidi ler o máximo que pudesse. Mas não qualquer livro. Sem querer ofender os livros “comuns”, esse ano decidi que queria focar em clássicos. Geralmente as pessoas os admiram, falam muito deles, contudo não os leem. Já dizia Mark Twain que um clássico é um livro que todos admiram, porém ninguém lê. Eu sempre pensei que se os clássicos se tornaram tão importantes é porque deveriam ser livros incríveis, entretanto, ainda não tinha tido coragem de ler. Então, decidi que custe o que custasse, esse ano eu tentaria ler quantos clássicos conseguisse.
O ano ainda não acabou, tenho muito tempo
para ler ainda mais clássicos, mas quis relatar logo que não estou me
arrependendo nem um pouco. O que muitas vezes permeia nossos pensamentos
preocupados é o seguinte: “A linguagem deve ser muito difícil, não vou entender
nada!”. Não poderia estar mais equivocado. É que na escola a gente tem contato
com Machado de Assis (amo) e acha que todo escritor vai ser “complicado” na
escrita como ele é. Para minha surpresa, não são. Ainda não acho Machado a
leitura mais simples do mundo, entretanto, li, por exemplo, Os Miseráveis em
dez dias e não tive dificuldade nenhuma. Foram as mais deliciosas e perfeitas
1509 páginas da minha vida! Estou escrevendo uma resenha de recomendação sobre
ele, que provavelmente será publicada na minha coluna no site O-Livreiro (ela estréia essa terça!), todavia, por ser um livro tão bom, não acho que minhas simples palavras mortais
serão suficientes para descrever sua magnificência.
Além dele, já li Madame Bovary, Ensaio sobre
a Lucidez (não sei se é considerado um clássico, mas eu amo José Saramago),
Fahrenheit 451, A Metamorfose, Alice no País das Maravilhas (de novo, não tenho
certeza se é um clássico, mas com certeza deveria ser, mesmo que seja uma
história “infantil”). Minha proposta era ler o máximo que pudesse, por enquanto
esses foram os que consegui, os outros livros que li não são considerados
clássicos, são apenas meros mortais, mas também muito bons. É que além de ler clássicos, também decidi que essa ano só leria livros que gostasse desde o princípio. Isso é difícil de acontecer, eu sei, mas estou tentando me livrar de alguns tabus literários.
O que mais tem me ajudado a encontrar
clássicos, é a Coleção Saraiva de Bolso. Não tenho muitos, mas sempre que vou à
livraria procuro adquirir mais. Dez reais por um livro tão bom é uma pechincha!
Como comecei a adquiri-los muito recentemente, ainda não tive o prazer de ler
todos, entretanto, recomento para todo aquele que também estiver interessado em
tentar essa experiência e não quiser gastar muito. São mais de 170 títulos
maravilhosos, e o melhor é que ainda estão sendo lançados outros!
Achei uma iniciativa ótima da Saraiva para incentivar
os jovens a lerem mais clássicos, pois é algo realmente em falta. Portanto,
quem gosta muito de ler deveria deixar um pouco de lado as leituras usuais e
tentar explorar esse novo universo. Se não se sentir preparado tudo bem, isso
acontece com todo mundo. Às vezes eu começo um livro e, após algumas páginas
penso: “Acho que ainda não estou pronta para essa leitura, melhor esperar um
pouco mais”. Isso, inclusive, é algo positivo, pois garante que quando você
estiver pronto, sua leitura será muito mais proveitosa. Não gosto da ideia de
terminar um livro “por obrigação”. Sim, muitas vezes pode ser surpreendente e
acabar sendo bom, mas outras vezes não é, e o tempo que você levou para
terminar a leitura (certamente maior que o usual, já que não estava sendo uma
atividade prazerosa), poderia ter sido gasto com um ou dois outros livros muito
bons.
Em uma disciplina que paguei esse semestre,
aprendi coisas valiosas sobre a leitura. Por exemplo, se você não está interessado,
não faz proveito nenhum; é como ler sobre as bacias hidrográficas da Amazônia
sem ter vontade de saber sobre isso. Você passa o olho, mas não absorve. É bom
ler quando a gente tem um objetivo, e no caso dessas leituras selecionadas por
nós mesmos, o objetivo é o prazer de ler algo bom, relaxar, esquecer o mundo ao
redor e mergulhar de cabeça na história. É preciso parar com esse preconceito
de que “não pode não terminar o livro”. Pode sim. Do mesmo jeito que você pode
parar um filme, mudar de canal ou sair da sala do cinema, se não gostar. A leitura é pra ser uma
coisa boa, não ruim.
Inclusive, acho que é por causa dessa
sensação de obrigação – principalmente passada pela escola, quando nos
“obrigam” a ler os clássicos da literatura brasileira – que muitos jovens criam
aversão à leitura. Não se pode, de jeito nenhum, exigir que uma criança no
sétimo ou oitavo ano tenha competência para ler Machado de Assis! O gosto pela
leitura deve começar desde cedo, e para indicar leituras mais sérias, é preciso
antes que o jovem tenha passado por muitas experiências literárias para poder
aproveitar o mínimo de uma leitura mais complexa. Falo isso baseada em mim
mesma. Se não tivesse devorado todos os volumes de Meg Cabot quando criança,
não teria aprendido o quanto ler é bom, e talvez não me interessasse por
conhecer leituras mais complexas hoje.
As escolas precisam perceber que essa forma
de incentivar a leitura está totalmente equivocada. Eles querem criar grandes
leitores, mas não querem deixar que eles comecem com leituras simples, querem
pular etapas. O melhor é incentivar as leituras que os alunos querem fazer, até
certa idade, promover atividades relacionadas, por exemplo pedir que cada um
conte sobre o que está lendo a cada determinado período de tempo. Assim, em vez
de criar desgosto pelas aulas de literatura, os alunos podem passar a ansiar
por elas.
É muito inocente da parte desses educadores
pensar que os alunos realmente leem os livros que nos são indicados para
comprar no início de todos os anos. Não nego que alguns devem ler, mas quantos?
Vou usar minha antiga escola como exemplo. Todo ano, precisávamos comprar 3
livros clássicos indicados na lista de material, que supostamente seriam
utilizados nas aulas de literatura. Nos 3 anos que estudei lá, só uma
professora nos fez realmente ler os livros. E nem foram todos, cada um podia
escolher qual queria ler e depois seríamos avaliados, entretanto essa não é a
questão. O ponto é que ela encontrou uma maneira de nos fazer ler – a prova – e
nós lemos. Como no caso não eram leituras tão complexas, foi tirado determinado
proveito, entretanto, a maioria o fez por obrigação, e essa palavra, obrigação, não deveria estar associada à
leitura.
Lê-se por prazer. Prazer de aprender, de
poder viajar o mundo inteiro sem sair da poltrona, de conhecer um mundo novo. A
obrigação gera a aversão. Isso qualquer um pode perceber. Ao ser obrigado a
fazer algo, a vontade de repetir a ação diminui em dez vezes, no mínimo. Por
isso, escolas, não obriguem seus alunos a ler, ensine-os a gostar de ler.
Mas a escola não é a única culpada, os exemplos
de casa também influenciam. Vejo muitos pais querendo que seus filhos leiam
muito, quando eles mesmos não pegam em um livro. Não considero exatamente
hipocrisia, pois sei que os pais só querem o melhor para seus filhos,
entretanto, sem esse exemplo, fica mais difícil, apesar de possível. Meu pai,
por exemplo, é um grande leitor, e se não fosse por ele talvez eu não gostasse
tanto de ler. Contudo, se ele não tivesse deixado que eu evoluísse sozinha com
minhas leituras, hoje não teria prazer em procurar clássicos para ler. Tenho
certeza absoluta disso porque quando eu era mais nova ele insistia com todas as
forças para que eu lesse Monteiro Lobato. Hoje eu nem chego perto de nada que
envolva esse homem. Sei que ele foi importante, mas a sensação de obrigação,
para mim, está intimamente ligada a ele e suas obras. Comigo foi só um, mas com
outras pessoas podem ser mais, e mais, e mais.
Portanto, para evitar mais traumas,
precisamos nos desprender de todos os tabus que envolvem a leitura por prazer
(porque a leitura para trabalhos, etc. Envolve aspectos totalmente diferentes):
Ninguém é obrigado a ler um livro até o fim
se não está gostando. Pode-se até insistir um pouco mais para ver se melhora, o
que é possível, mas caso contrário, pare, vá procurar algo que gosta, você não está cometendo um crime por causa
disso. Parar de ler não significa que no futuro você não possa retomar a
leitura, dessa vez mais preparado, e aproveitá-la ainda mais.
As crianças e os adolescentes não precisam
ler clássicos para se tornarem bons leitores. Ao contrário, eles precisam ler o
que gostam para começar a apreciar a atividade.
Não se pode obrigar ninguém a ler nada. Isso só vai fazer a pessoa criar
aversão à leitura.
O gosto e a evolução da leitura ocorre com o
tempo, e cada um tem seu próprio ritmo. Se uma criança de 10 anos lê e
aproveita Machado de Assis não quer dizer que o mesmo ocorrerá com todos os
outros. Os pais e as escolas precisam entender isso.
Por fim, para quem gostaria de ingressar
também nesse universo dos clássicos, vou indicar alguns que já li e são de
ótimo aproveitamento, até porque se inserem muito bem no que estamos vivendo
hoje.
1984, de
George Orwell. Esse anda muito conhecido, pelo que percebi, por suas
semelhanças cada vez mais gritantes com o mundo informatizado. Discute até onde
vai o controle que os meios de comunicação têm sobre nós, em relação à
observação de nossas atividades (o que podemos relacionar com as redes sociais
de hoje) e ao controle de nossas ações. Vale adicionar que foi desse livro que
surgiu a ideia para a criação do programa Big Brother.
Fahrenheit
451, de Ray BradBury. É sobre uma realidade alternativa, em um
futuro talvez não tão distante, no qual a massificação se tornou tão demasiada
que os livros foram proibidos. Com a evolução da tecnologia, todos os edifícios
passaram a ser à prova de fogo, e o trabalho dos bombeiros se inverteu. Em vez
de apagar incêndios, eles os criam. Para queimar livros. O modo como a situação
chegou a esse ponto foi o que mais me chamou a atenção no livro, pois é uma
razão muito próxima da nossa realidade, que talvez possa até ser possível.
Admirável
Mundo Novo, de Aldous Huxley. Definitivamente, esse é um dos meus
livros preferidos no mundo inteiro. A edição que eu tenho está literalmente aos
pedaços (se rasgou enquanto eu lia, pois era muito antiga), mas isso não me
impediu de aproveitar ao máximo a perfeição com a qual esse livro foi escrito.
É uma história perfeitamente plausível que conta sobre uma realidade paralela
na qual as pessoas são criadas em laboratório (o processo é explicado em
detalhes no próprio livro), moldadas e alienadas de modo a serem completamente
felizes. E se a tristeza bater em algum momento, é só tomar uma dose de soma e
tudo fica bem de novo. O que eu mais gosto nessa obra é a maneira como Huxley
conseguiu construir esse mundo de uma forma tão detalhada e possível de ser
realizada. Quando eu estava lendo, muitas dúvidas me apeteciam, “por que isso
não é assim? Não seria muito melhor?” e parece que ele conseguia ler minha
mente, pois para toda pergunta, ele aparecia com uma resposta perfeitamente
compreensível. É um livro que todos deveriam ler, com certeza.












Isabela Maia, estudante de Jornalismo, 20 anos, apaixonada por filosofia, pedagogia, psicologia, literatura... Leitora compulsiva, viciada em videogames. Gosta muito de escrever e tenta fazê-lo todo dia; um dia pretende ajudar muitas pessoas com sua escrita.
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