26 de junho de 2015

Doce Dulce


Eu fiz essa entrevista enquanto estava no salão. Era um dia estranhamente silencioso e eu aproveitei a oportunidade para conversar um pouco com a minha cabeleireira. Ao começar, não tinha nenhuma expectativa, e é assim que prefiro, pois desse modo as surpresas são ainda mais fantásticas. 

Não utilizei gravador, mal anotei. Todo esse perfil foi escrito com base em uma conversa que tivemos sobre a vida dela, e eu gostei bastante do resultado, considerando as circunstâncias. Escrever assim me faz confiar mais em minha capacidade e me lembra que não é preciso ter um gravador para fazer um bom trabalho.

Não sei vocês, mas geralmente, quando olho para uma pessoa penso: "Qual será sua história?". E a possibilidade de desvendar esse mistério e transformá-lo em algo que pode ser contado é uma coisa maravilhosa, é uma das principais razões para eu amar ser jornalista. É como já disse Eliane Brum, eu só preciso de um bloquinho e uma caneta e posso entrar em qualquer lugar, descobrir qualquer história.

Nesse dia foi a minha cabeleireira, da próxima vez, quem sabe o que me aguarda? Só espero que essas oportunidades maravilhosas continuem aparecendo.


Sua vida começou aos 15 anos. Antes era tudo fácil, simples, bom, não era vida. E começou assim, de súbito, fruto de um amor de verão. Sua vida, poeticamente, começou por causa de outra vida, que nessa idade começou a florescer dentro dela. De repente, tudo mudou.


Devido às peripécias que fez durante a adolescência, ganhou uma companheira de jornada, que após seis meses viajou com ela, ainda guardada em seu ventre, esperando o momento certo para fazer essa viagem só de vinda para a vida. Elas viajaram com o tal semeador dessa flor, foram para São Paulo, capital não oficial do Brasil, metrópole, cidade dos sonhos. E em meio a tanta fumaça, tanta gente, e mais e mais flores crescendo em seu jardim, adentrando seu ventre e decorando sua vida com delicadeza e amor, ela aprendeu o que era a vida.


Jogou-se de cabeça na aventura, precisava trabalhar. Em uma cidade tão grande, há inúmeras fábricas, que não exigem grande conhecimento sobre a manufatura para garantir um emprego a quem precisa. Não por bondade, por necessidade. Tornou-se costureira. Trabalhou em fábricas de jeans, de camiseta. Era um trabalho fácil, pois era dividido, cada uma costurava uma parte, só era preciso saber manusear a máquina.


Suas mãos hábeis logo se acostumaram ao ofício, mas seu clamor era por algo mais, algo que ela ainda não sabia na época, mas já podia pressentir com seus sentidos aguçados. Decidiu, então, largar o emprego e procurar cursos para se tornar mais qualificada. Mulher inteligente, que sabe se cuidar, sabia que era preciso ter um diferencial para garantir prosperidade em sua vida. Iniciou um curso de costura. Se já trabalhava a tanto com isso, porque não oficializar e tornar-se uma das boas? Ou quem sabe uma estilista?


Mas não é possível forçar a si um destino que não foi traçado no momento de seu nascimento, pode-se tentar, entretanto, ao que parece, por mais que se tente nadar contra a correnteza, mais ela o puxa para o outro lado. Percebeu em pouquíssimo tempo que não fora feita para isso. O pensamento já vagueava em sua mente, tímido, incerto. Aos poucos, tornou-se impossível lutar contra ele: seria cabeleireira.


Os cursos de profissionalização nessas áreas em cidades maiores são levados muito mais a sério. Para terminar o básico, levou 1 ano. Contudo, não era suficiente para o que seus objetivos pretendiam. Um curso básico possibilitaria, no máximo, trabalhar em um pequeno salão de bairro, e sua ambição a fomentava a continuar. Tinha um jardim com duas maravilhosas flores para cuidar, elas precisavam crescer saudáveis, e isso não era fácil, principalmente uma vez que a vida com o semeador tornara-se impossível e precisaram partir. Um novo homem entrara em suas vidas, um irmão, não melhor.
Com toda a dedicação que possuía, continuou fazendo cursos de aperfeiçoamento, até decidir que estava bom. Graças a eles, aprendeu muito mais sobre colorações, cortes, o que achou preciso, e sentiu que agora sim estava apta a tentar a sorte em um salão que considerasse digno. Não demorou para que uma oportunidade cruzasse seu caminho.


Por indicação de um amigo, conseguiu uma chance em um ótimo salão, conceituado. Começou como auxiliar. Fazia lavagens, escovas, o básico. Após três meses, sua chefe achou que provara seu valor, e conseguiu ganhar sua própria cadeira. “Foi a primeira vez que eu me senti uma cabeleireira de verdade!”. Só tinha 22 anos.


No início de um ofício, é razoável sentir insegurança. Com ela não foi diferente. Sua ansiedade fazia seu coração palpitar toda vez que uma cliente sentava a sua frente e explicava o que queria. Ela aquiescia. As mãos tremulavam, os lábios contraíam, e o coração batia forte no peito, queria saltar, tum, tum, tum, tum!


Seus olhos castanhos, contornados com delineador, cintilam como se ainda estivessem vivendo aquele momento. Ela ri ao lembrar dos episódios de seu início de carreira. Enquanto contorna minhas sobrancelhas com sua pinça, fala sobre um desses momentos marcantes e assustadores.


Sua chefe tinha passado uma de suas clientes fiéis para ela. Era a primeira vez que Dulce trabalharia com a moça, e, ainda estando no início, estava dez vezes mais nervosa com a responsabilidade de fazer um corte de cabelo bem bonito e ainda impressionar a cliente da chefe. As mãos tremiam, suavam, a tesoura vacilava, a respiração ficava mais forte. Tum, tum, tum. De repente, perde o controle da tesoura, bem quando estava cortando uma mecha bem curta, as mãos vacilam, a orelha da cliente torna-se vítima de seus anseios.


Desesperada, corre para o banheiro, tranca a porta e começa a chorar. Do lado de fora, sangue jorra sem parar da cliente que teve um pedaço de sua orelha cortado fora. Dulce não sabe o que fazer, apenas chora, compungida, envergonhada. A mãe da cliente grita com ela pelo outro lado da porta: “Vou te processar, sua incompetente, irresponsável! Minha filha é juíza, ouviu bem?”. Um processo?! Seu estômago embrulhou, sua barriga começou a doer. De coração e ventre apertados pela dor do arrependimento, tudo dentro dela implorava para que não saísse dali nunca mais. As lágrimas inundavam sua face. Tum, tum, tum.


Como seria impossível que ficasse lá o resto da vida, precisou sair em determinado momento. Todos no salão tinham se mobilizado para ajudar a moça, que se apresentava extremamente serena perante a situação. A moça a desculpou, mandou que se acalmasse, e com um sorriso nos lábios disse com sinceridade que estava tudo bem. Dulce não conseguiu se acalmar de imediato, porém sua vida de cabeleireira não estava arruinada como havia pensado. A moça continuou sua cliente fiel até o dia em que deixou aquele local de trabalho.


Agora estou na cadeira e ela penteia meus cabelos com graça, preparando-se para escová-los. Os anos de trabalho duro na profissão causaram uma lesão em seu ombro. Está em processo de calcificação. Não pode mais fazer tantas escovas, a dor é quase insuportável, entretanto, imperceptível em seus gestos e expressões quando manuseia o secador com graça e profissionalidade. Hoje ri da história, no entanto, no dia, ficou se sentindo realmente mal. Ela diz que falar sobre isso a lembra de muito mais causos do passado. “Vou te contar mais um!”.


Manusear corretamente e se tornar mestre nos processos de coloração capilar é algo muito mais difícil do que aparenta aos leigos. Não é só jogar a tinta no cabelo e esperar acontecer. É preciso conhecer as tonalidades, saber fazer as misturas corretas, o melhor modo de aplicar cada cor, tudo para satisfazer a cliente no fim do dia. O cuidado nesses momentos é essencial, pois qualquer erro, por menor que possa parecer, pode acabar de vez com os cabelos mais sensíveis. O que aconteceu a deixou ainda mais atenta para essas situações de coloração.


Era um dia normal no salão, com suas clientes usuais, nada de diferente parecia estar prestes a acontecer. Chegou uma moça em seu horário marcado. Loura, louríssima, os fios quase brancos de tão claros. Era sua pintura usual para manter o tom. A cor era 10,0. Havia outra que era apenas 10 0.
É em momentos como esse que se percebe o quão catastrófica uma vírgula pode ser. Isso porque sua ausência não indicava simplesmente uma outra tonalidade, que, pelo número, para qualquer um sugeriria que seria muito próxima da anterior. Não. Ela indicava a cor mais antagônica à primeira. Preto azulado.


Quando se passa uma tintura no cabelo, todas as tintas, no momento da aplicação, são brancas. Após poucos minutos elas vão agindo e apresentando sua verdadeira tonalização. Dulce aplicou o produto e foi para outra sala, enquanto a primeira cliente esperava o tempo da tinta agir. Quando estava trabalhando no cabelo de outra, uma de suas colegas chegou apressada e sussurrou ao pé de seu ouvido: “O cabelo de Renata está preto!”. Ela gelou.


Olhou para a outra sala e a cliente estava sentada lendo uma revista na maior calma do mundo. Nervosa, contra sua vontade, porém obrigada pela honestidade com a qual exercia sua profissão, foi falar com a mulher. Uma casualidade muito positiva nesses casos vividos por ela, era que as clientes pareciam sempre serenas perante situações para ela tão catastróficas. A ex-loura mal levantou os olhos, perguntou com simplicidade: “Meu cabelo ficou preto, é?”.


A tinta ainda não tinha tido muito tempo para agir, entretanto, convenhamos, é razoável que até o menos entendido sobre cabelos no mundo esteja ciente de que passar uma coloração preta por cima de um cabelo quase branco significa uma possibilidade muito ínfima de retroceder o processo com rapidez e sucesso. Foi um longo tempo de trabalho árduo, gastando uma quantidade muito grande de produtos, que seriam suficientes para três, quatro clientes diferentes. E tudo de graça. Tudo para concertar esse pequeno erro de vírgula.


“Eu consegui arrumar o cabelo dela no final, mas deu um trabalhão!”. E isso é o que não falta em sua vida: trabalho. Mas é algo que exerce com muita boa vontade, pois hoje é dona de seu próprio negócio e realiza uma profissão que a faz muito feliz. O único arrependimento do passado que ainda sombreava seu coração era o de não ter terminado de estudar, entretanto, isso já se resolveu e hoje, aos 50 anos, com físico e feições que aparentem 30 e muitos ou 40 e poucos, ela pode dizer com orgulho que está para terminar o último ano do ensino médio.


Faculdade? Talvez fizesse administração, pois contribuiria muito para que pudesse gerenciar seu negócio com mais consciência, todavia, busca focar hoje no que acha que agrega mais valor a si mesma como profissional: cursos. Além dos cursos de cabeleireira, já fez muitos sobre sobrancelhas, de modelagem a design. E ainda, agora é capaz de realizar processos de desenhos de sobrancelhas definitivas, bem ciente do tamanho, cor, que melhor adequam-se às feições das clientes.


Se fosse possível retroceder as areias do tempo, recomeçar a vida e realizar todos os “e se’s”, não seria uma cabeleireira. A fantasia que imagina para si envolve muito mais números do que aqueles com os quais está acostumada a trabalhar no exercício da contabilidade de seu salão. Não gosta de matemática, contudo, se fosse mais jovem, poderia dedicar-se e aprender bem, para fazer o que acredita que gostaria muito: ser arquiteta.


De maneira onírica e misteriosa, os poderes desconhecidos do destino fizeram com que ela pudesse realizar o mais próximo disso que fosse possível. Hoje, arquiteta, mede, sobrancelhas, planeja, desenha cortes de cabelos. E, depois de 28 anos separada daquele primeiro que a magoou, o amor decidiu vir ao seu encontro, bem na porta de seu salão. Está noiva.


Dulce é uma mulher doce, competente, comunicativa, que realiza seu ofício com destreza. Os caminhos que a levaram à vida que tem hoje foram, muitas vezes, tortuosos, os desafios, complexos, mas não intransponíveis. Essa mulher forte deu tudo de si para criar suas filhas direito, para prosperar, ser honesta e ser profissional. “Eu renunciei à minha vida”. Mas a vida não a renunciou.


Até onde suas forças deixarem, Dulce continuará a se esforçar para trabalhar o máximo que puder, aproveitar todas as oportunidades que lhe aparecerem e viver na vida que sonha a cada passo que dá. Não é a criação utópica de uma vida como arquiteta bem sucedida, é uma história real. É um sonho que se auto constrói, o sonho de uma moça que perdeu sua adolescência devido à uma gravidez e precisou aprender a se virar e a viver como podia. É o sonho da Dulce. 

1 comentários:

  1. Anônimo10.7.15

    Gostei Muito da forma como você fala sobre a gravidez . Um jardim semeado

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