Eu fiz essa entrevista enquanto estava no salão. Era um dia estranhamente silencioso e eu aproveitei a oportunidade para conversar um pouco com a minha cabeleireira. Ao começar, não tinha nenhuma expectativa, e é assim que prefiro, pois desse modo as surpresas são ainda mais fantásticas.
Não utilizei gravador, mal anotei. Todo esse perfil foi escrito com base em uma conversa que tivemos sobre a vida dela, e eu gostei bastante do resultado, considerando as circunstâncias. Escrever assim me faz confiar mais em minha capacidade e me lembra que não é preciso ter um gravador para fazer um bom trabalho.
Não sei vocês, mas geralmente, quando olho para uma pessoa penso: "Qual será sua história?". E a possibilidade de desvendar esse mistério e transformá-lo em algo que pode ser contado é uma coisa maravilhosa, é uma das principais razões para eu amar ser jornalista. É como já disse Eliane Brum, eu só preciso de um bloquinho e uma caneta e posso entrar em qualquer lugar, descobrir qualquer história.
Nesse dia foi a minha cabeleireira, da próxima vez, quem sabe o que me aguarda? Só espero que essas oportunidades maravilhosas continuem aparecendo.
Sua vida
começou aos 15 anos. Antes era tudo fácil, simples, bom, não era vida. E
começou assim, de súbito, fruto de um amor de verão. Sua vida, poeticamente,
começou por causa de outra vida, que nessa idade começou a florescer dentro
dela. De repente, tudo mudou.
Devido
às peripécias que fez durante a adolescência, ganhou uma companheira de
jornada, que após seis meses viajou com ela, ainda guardada em seu ventre,
esperando o momento certo para fazer essa viagem só de vinda para a vida. Elas
viajaram com o tal semeador dessa flor, foram para São Paulo, capital não
oficial do Brasil, metrópole, cidade dos sonhos. E em meio a tanta fumaça,
tanta gente, e mais e mais flores crescendo em seu jardim, adentrando seu
ventre e decorando sua vida com delicadeza e amor, ela aprendeu o que era a
vida.
Jogou-se
de cabeça na aventura, precisava trabalhar. Em uma cidade tão grande, há
inúmeras fábricas, que não exigem grande conhecimento sobre a manufatura para
garantir um emprego a quem precisa. Não por bondade, por necessidade. Tornou-se
costureira. Trabalhou em fábricas de jeans, de camiseta. Era um trabalho fácil,
pois era dividido, cada uma costurava uma parte, só era preciso saber manusear
a máquina.
Suas
mãos hábeis logo se acostumaram ao ofício, mas seu clamor era por algo mais,
algo que ela ainda não sabia na época, mas já podia pressentir com seus
sentidos aguçados. Decidiu, então, largar o emprego e procurar cursos para se
tornar mais qualificada. Mulher inteligente, que sabe se cuidar, sabia que era preciso
ter um diferencial para garantir prosperidade em sua vida. Iniciou um curso de
costura. Se já trabalhava a tanto com isso, porque não oficializar e tornar-se
uma das boas? Ou quem sabe uma estilista?
Mas não
é possível forçar a si um destino que não foi traçado no momento de seu
nascimento, pode-se tentar, entretanto, ao que parece, por mais que se tente
nadar contra a correnteza, mais ela o puxa para o outro lado. Percebeu em
pouquíssimo tempo que não fora feita para isso. O pensamento já vagueava em sua
mente, tímido, incerto. Aos poucos, tornou-se impossível lutar contra ele:
seria cabeleireira.
Os
cursos de profissionalização nessas áreas em cidades maiores são levados muito
mais a sério. Para terminar o básico, levou 1 ano. Contudo, não era suficiente
para o que seus objetivos pretendiam. Um curso básico possibilitaria, no
máximo, trabalhar em um pequeno salão de bairro, e sua ambição a fomentava a
continuar. Tinha um jardim com duas maravilhosas flores para cuidar, elas
precisavam crescer saudáveis, e isso não era fácil, principalmente uma vez que
a vida com o semeador tornara-se impossível e precisaram partir. Um novo homem
entrara em suas vidas, um irmão, não melhor.
Com toda
a dedicação que possuía, continuou fazendo cursos de aperfeiçoamento, até
decidir que estava bom. Graças a eles, aprendeu muito mais sobre colorações,
cortes, o que achou preciso, e sentiu que agora sim estava apta a tentar a
sorte em um salão que considerasse digno. Não demorou para que uma oportunidade
cruzasse seu caminho.
Por
indicação de um amigo, conseguiu uma chance em um ótimo salão, conceituado.
Começou como auxiliar. Fazia lavagens, escovas, o básico. Após três meses, sua
chefe achou que provara seu valor, e conseguiu ganhar sua própria cadeira. “Foi
a primeira vez que eu me senti uma cabeleireira de verdade!”. Só tinha 22 anos.
No
início de um ofício, é razoável sentir insegurança. Com ela não foi diferente.
Sua ansiedade fazia seu coração palpitar toda vez que uma cliente sentava a sua
frente e explicava o que queria. Ela aquiescia. As mãos tremulavam, os lábios
contraíam, e o coração batia forte no peito, queria saltar, tum, tum, tum, tum!
Seus
olhos castanhos, contornados com delineador, cintilam como se ainda estivessem
vivendo aquele momento. Ela ri ao lembrar dos episódios de seu início de
carreira. Enquanto contorna minhas sobrancelhas com sua pinça, fala sobre um
desses momentos marcantes e assustadores.
Sua
chefe tinha passado uma de suas clientes fiéis para ela. Era a primeira vez que
Dulce trabalharia com a moça, e, ainda estando no início, estava dez vezes mais
nervosa com a responsabilidade de fazer um corte de cabelo bem bonito e ainda
impressionar a cliente da chefe. As mãos tremiam, suavam, a tesoura vacilava, a
respiração ficava mais forte. Tum, tum, tum. De repente, perde o controle da
tesoura, bem quando estava cortando uma mecha bem curta, as mãos vacilam, a
orelha da cliente torna-se vítima de seus anseios.
Desesperada,
corre para o banheiro, tranca a porta e começa a chorar. Do lado de fora, sangue
jorra sem parar da cliente que teve um pedaço de sua orelha cortado fora. Dulce
não sabe o que fazer, apenas chora, compungida, envergonhada. A mãe da cliente
grita com ela pelo outro lado da porta: “Vou te processar, sua incompetente,
irresponsável! Minha filha é juíza, ouviu bem?”. Um processo?! Seu estômago
embrulhou, sua barriga começou a doer. De coração e ventre apertados pela dor
do arrependimento, tudo dentro dela implorava para que não saísse dali nunca
mais. As lágrimas inundavam sua face. Tum, tum, tum.
Como
seria impossível que ficasse lá o resto da vida, precisou sair em determinado
momento. Todos no salão tinham se mobilizado para ajudar a moça, que se
apresentava extremamente serena perante a situação. A moça a desculpou, mandou
que se acalmasse, e com um sorriso nos lábios disse com sinceridade que estava
tudo bem. Dulce não conseguiu se acalmar de imediato, porém sua vida de
cabeleireira não estava arruinada como havia pensado. A moça continuou sua
cliente fiel até o dia em que deixou aquele local de trabalho.
Agora
estou na cadeira e ela penteia meus cabelos com graça, preparando-se para
escová-los. Os anos de trabalho duro na profissão causaram uma lesão em seu
ombro. Está em processo de calcificação. Não pode mais fazer tantas escovas, a
dor é quase insuportável, entretanto, imperceptível em seus gestos e expressões
quando manuseia o secador com graça e profissionalidade. Hoje ri da história,
no entanto, no dia, ficou se sentindo realmente mal. Ela diz que falar sobre
isso a lembra de muito mais causos do passado. “Vou te contar mais um!”.
Manusear
corretamente e se tornar mestre nos processos de coloração capilar é algo muito
mais difícil do que aparenta aos leigos. Não é só jogar a tinta no cabelo e
esperar acontecer. É preciso conhecer as tonalidades, saber fazer as misturas
corretas, o melhor modo de aplicar cada cor, tudo para satisfazer a cliente no
fim do dia. O cuidado nesses momentos é essencial, pois qualquer erro, por
menor que possa parecer, pode acabar de vez com os cabelos mais sensíveis. O
que aconteceu a deixou ainda mais atenta para essas situações de coloração.
Era um
dia normal no salão, com suas clientes usuais, nada de diferente parecia estar
prestes a acontecer. Chegou uma moça em seu horário marcado. Loura, louríssima,
os fios quase brancos de tão claros. Era sua pintura usual para manter o tom. A
cor era 10,0. Havia outra que era apenas 10 0.
É em
momentos como esse que se percebe o quão catastrófica uma vírgula pode ser.
Isso porque sua ausência não indicava simplesmente uma outra tonalidade, que,
pelo número, para qualquer um sugeriria que seria muito próxima da anterior.
Não. Ela indicava a cor mais antagônica à primeira. Preto azulado.
Quando
se passa uma tintura no cabelo, todas as tintas, no momento da aplicação, são
brancas. Após poucos minutos elas vão agindo e apresentando sua verdadeira
tonalização. Dulce aplicou o produto e foi para outra sala, enquanto a primeira
cliente esperava o tempo da tinta agir. Quando estava trabalhando no cabelo de
outra, uma de suas colegas chegou apressada e sussurrou ao pé de seu ouvido: “O
cabelo de Renata está preto!”. Ela gelou.
Olhou
para a outra sala e a cliente estava sentada lendo uma revista na maior calma
do mundo. Nervosa, contra sua vontade, porém obrigada pela honestidade com a
qual exercia sua profissão, foi falar com a mulher. Uma casualidade muito
positiva nesses casos vividos por ela, era que as clientes pareciam sempre
serenas perante situações para ela tão catastróficas. A ex-loura mal levantou
os olhos, perguntou com simplicidade: “Meu cabelo ficou preto, é?”.
A tinta
ainda não tinha tido muito tempo para agir, entretanto, convenhamos, é razoável
que até o menos entendido sobre cabelos no mundo esteja ciente de que passar
uma coloração preta por cima de um cabelo quase branco significa uma
possibilidade muito ínfima de retroceder o processo com rapidez e sucesso. Foi
um longo tempo de trabalho árduo, gastando uma quantidade muito grande de
produtos, que seriam suficientes para três, quatro clientes diferentes. E tudo
de graça. Tudo para concertar esse pequeno erro de vírgula.
“Eu
consegui arrumar o cabelo dela no final, mas deu um trabalhão!”. E isso é o que
não falta em sua vida: trabalho. Mas é algo que exerce com muita boa vontade,
pois hoje é dona de seu próprio negócio e realiza uma profissão que a faz muito
feliz. O único arrependimento do passado que ainda sombreava seu coração era o
de não ter terminado de estudar, entretanto, isso já se resolveu e hoje, aos 50
anos, com físico e feições que aparentem 30 e muitos ou 40 e poucos, ela pode
dizer com orgulho que está para terminar o último ano do ensino médio.
Faculdade?
Talvez fizesse administração, pois contribuiria muito para que pudesse
gerenciar seu negócio com mais consciência, todavia, busca focar hoje no que
acha que agrega mais valor a si mesma como profissional: cursos. Além dos
cursos de cabeleireira, já fez muitos sobre sobrancelhas, de modelagem a
design. E ainda, agora é capaz de realizar processos de desenhos de
sobrancelhas definitivas, bem ciente do tamanho, cor, que melhor adequam-se às
feições das clientes.
Se fosse
possível retroceder as areias do tempo, recomeçar a vida e realizar todos os “e
se’s”, não seria uma cabeleireira. A fantasia que imagina para si envolve muito
mais números do que aqueles com os quais está acostumada a trabalhar no
exercício da contabilidade de seu salão. Não gosta de matemática, contudo, se
fosse mais jovem, poderia dedicar-se e aprender bem, para fazer o que acredita
que gostaria muito: ser arquiteta.
De
maneira onírica e misteriosa, os poderes desconhecidos do destino fizeram com
que ela pudesse realizar o mais próximo disso que fosse possível. Hoje,
arquiteta, mede, sobrancelhas, planeja, desenha cortes de cabelos. E, depois de
28 anos separada daquele primeiro que a magoou, o amor decidiu vir ao seu
encontro, bem na porta de seu salão. Está noiva.
Dulce é
uma mulher doce, competente, comunicativa, que realiza seu ofício com destreza.
Os caminhos que a levaram à vida que tem hoje foram, muitas vezes, tortuosos,
os desafios, complexos, mas não intransponíveis. Essa mulher forte deu tudo de
si para criar suas filhas direito, para prosperar, ser honesta e ser
profissional. “Eu renunciei à minha vida”. Mas a vida não a renunciou.
Até onde
suas forças deixarem, Dulce continuará a se esforçar para trabalhar o máximo
que puder, aproveitar todas as oportunidades que lhe aparecerem e viver na vida
que sonha a cada passo que dá. Não é a criação utópica de uma vida como
arquiteta bem sucedida, é uma história real. É um sonho que se auto constrói, o
sonho de uma moça que perdeu sua adolescência devido à uma gravidez e precisou
aprender a se virar e a viver como podia. É o sonho da Dulce.











Isabela Maia, estudante de Jornalismo, 20 anos, apaixonada por filosofia, pedagogia, psicologia, literatura... Leitora compulsiva, viciada em videogames. Gosta muito de escrever e tenta fazê-lo todo dia; um dia pretende ajudar muitas pessoas com sua escrita.
Gostei Muito da forma como você fala sobre a gravidez . Um jardim semeado
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