Escrevi esse perfil sobre uma amiga pela qual tenho grande admiração, pois ela sempre me ajuda quando preciso, além de me dar carona quase todos os dias. Por isso mesmo, não fiquei muito satisfeita com o resultado. Por ela ser tão especial para mim, esperava nada menos que a perfeição, e como ninguém é perfeito, dei meu melhor, e foi isso o que saiu.
Início conturbado
A infância? Frustrada, pode-se dizer. A mãe a abandonou com
o pai aos 2 meses e ele, incapaz de cuidar dela, um homem inexperiente,
taxista, deu-a para a avó. Esta cuidou dela com a ajuda da outra filha. Ela
lavava roupa no rio de pium para viver.
Mudou-se diversas vezes, viveu com um tio, com uma tia e com
a ajuda financeira da família. Devido a brigas, em todos os casos, tinham de
sair das casas dos familiares. Sofria maus tratos do tio quando morava na casa
dele, ele a batia, a tratava mal, como um bicho. Entristece-se até hoje ao
lembrar.
Após anos de turbulências passou a morar sozinha com a avó. Elas se
mudavam muito, mas sempre para as redondezas, assim, ela pode estudar na mesma
escola do 1 ano a 8 série. Nessa época sua infância melhorou, podia ir para a
escola e gostava muito, tirava notas altas, aprendia rápido, adorava estudar.
O pai sempre contribuiu com seus estudos, apoiou, comprou
material, livros, tudo o que era necessário, mas sua relação, apesar de
estável, nunca foi de afeto, eles não eram próximos. Aos 18 anos, quando
terminou seu ensino médio e se formou como técnica de contabilidade, decidiu
dar seu grito de liberdade e foi morar de novo com a avó, agora em Pium. “Minha
avó era meu pai, minha mãe, meu tudo”.
Quando terminou o ensino médio queria ir direto para a
universidade, “Meu sonho era a universidade federal”, mas não se achava capaz
para tanto, nunca tentou. Então começou a trabalhar em um clube nas redondezas
de sua moradia e foi onde, nas vésperas de seu aniversário de 19 anos conheceu
o pai de sua filha. Seu relacionamento não era estável, ele não era de Natal.
Quando ela engravidou, ele se mudou para Brasília e até hoje sua filha não o
conhece.
Engravidou aos 21 anos de um homem 12 anos mais velho do que ela. Seu
atual marido é 12 anos mais novo. O pai a abandonou e à sua filha quando esta
tinha 2 meses, o mesmo que aconteceu com Tetê. É uma vida cheia de
coincidências e paradoxos.
Luz
Tornou-se mãe e voltou a morar com a avó no mesmo lugar. Lá
encontrou trabalho e estabilidade, mesmo que com um salario baixo. Trabalhava
como professora assistente em uma creche, que hoje é instituição de ensino infantil.
A filha estudava lá.
Em 2001, iniciou a faculdade de pedagogia. Foi um período
ótimo, ela conseguiu um emprego melhor, sua renda de 200 reais aumentou para
700, possibilitando que custeasse seus estudos. Mas então seu mundo caiu. Não
querendo se envolver na desonestidade que acompanha os cargos políticos, acabou
sendo demitida por se recusar a aceitar as mentiras que queriam obriga-la a
condizer com. Faltavam apenas 4 meses para finalizar seu curso. Precisou
abandoná-lo.
Escuridão
Um período de trevas e escuridão teve início em sua vida. Na
época não entendia, mas hoje sabe que sofreu de depressão, em um momento,
infelizmente, oportuno para contribuir com o avanço da patologia. Voltou ao
trabalho antigo como professora assistente na mesma época em que a escola entrou
em reforma.
Ela sabe que poderia ter pedido ajuda para terminar de
custear seus estudos, mas e a coragem? E o orgulho? Não foi capaz. Era seu
sonho, e a perspectiva de que ele fosse realizado tinha sido destruída, assim
como ela mesma. Um sonho frustrado.
Na época em que estava em depressão, não conversou com
ninguém sobre o que estava sentindo. A
bebida se tornou sua melhor companhia. Os empregos de finais de semana
continuaram sendo realizados com um sorriso falso no rosto, indecifrável. “Nunca
tive vontade de morrer”, mas era uma tristeza profunda, que jogava toda sua
positividade em um abismo escuro.
Foi em um feriado de ano novo que tudo mudou. Uma amiga a
convidou para joão Pessoa. Ficaram na casa de gente maravilhosa, convidativa,
boa. A vivacidade e alegria com que levavam a vida a contagiou de tal maneira
que decidiu que não podia continuar a se deixar levar pela tristeza.
Até hoje não conversou com ninguém da família sobre isso.
Depois da tempestade surge o arco íris
Finalmente uma luz brilhou, ela conheceu pessoas maravilhosas que a inspiraram a ter forças e lutar contra as mazelas que assolavam seu coração. Pouco depois ela
conheceu seu atual marido, pai de seu filho. “Unimos a vontade de viver”. Ele
era a força que ela precisava, o alicerce, o ponto de apoio para criar coragem
de realizar seus sonhos e correr atrás de tudo o que sempre quis. Compraram um
terreno e lá construíram seu lar.
Com o apoio de seu alicerce, entrou para a faculdade de
Educação Física, e essa ela terminou, na data e no tempo certo. Hoje está
fazendo uma especialização na área, mas seus objetivos relativos ao trabalho.
Trabalha na área, mas também não abandonou a creche em que começou a trabalhar
há 18 anos atrás. “Me sinto uma pedagoga hoje mais do que nunca”, e não acha
que a falta de diploma a torna menos adequada, uma veΩ que exerce as mesmas
funções que a professora titular, só o salario que é mais baixo. Mas sua
aptidão não é para cuidar de crianças.
Profissionalmente, Se pudesse, e pode, e vai, faria direito.
Não para ser advogada, para seguir carreira, pois não concorda com isso de
estudar muito para “ficar defendendo bandido”. Também gostaria de fazer outra
especialidade em educação física, para cuidar de pessoas especiais.
“Não seu onde vou chegar, mas sei que vou chegar”.
Assim, boa, justa
Ela gosta muito de ouvir as histórias dos outros, e elas
exercem um efeito quase mágico nela, dão sentido a sua vida, chegam a guia-la.
Vive assim, tranquila, esperançosa, contornando as pedras no meio do caminho e
aproveitando todas as oportunidades.
É uma mulher muito inquieta com as injustiças da vida. Essa
é a coisa que ela mais odeia. Tanto a ponto de se meter em qualquer situação
que não considera justa para tentar resolver. Certa vez, desrespeitaram um
idoso no ônibus e ela, consternada com a atitude passiva dos demais
passageiros, levantou-se e o defendeu. Seu discurso fervoroso acabou
contagiando as pessoas, e o idoso teve seus direitos respeitados afinal.
Não consegue ver as pessoas tratando mal umas às outras.
Outra vez, em visita ao condomínio de uma amiga, viu que na área de lazer
várias crianças brincavam. Era um bairro perigoso, com muitos pais envolvidos
em tráfico de drogas, ou apenas uso, com muita violência em casa, e sendo
passada para os filhos. Um menino, que parecia ser o líder de sua gangue de
crianças de 10 anos, batia em uma menina. Ela se aproximou decidida da menina
quando o outro se afastou e perguntou porque ela o deixava trata-la assim. Em
vista da atitude passiva, ela a mandou ir para casa e nunca mais deixar que
ninguém a tratasse daquela maneira. “Eu era uma criança bem brigona, não
deixava que se aproveitassem de mim. Batia de volta, mesmo que fosse apanhar”.
Um tempo depois, um dos meninos da gangue, o braço direito
do chefe, veio avisar que ele tinha dito que queria falar com a “rapariga” que
estava se metendo em sus assuntos. Uma multidão de pequenos projetos de adultos
se juntou ao seu redor. O menino ousou enfrenta-la. Ela deu uma lição de moral
que não acho que ele será capaz de esquecer.
Tete é uma pessoa ciente de suas responsabilidades para com
a sociedade, apesar de não acreditar que aqueles que deveriam ser os mais
preocupados com isso sejam merecedores de quantidade razoável de confiança. Se
em uma casa já existe grande divergência e conflitos relacionados à opinião,
que dirá em um país, e isso torna difícil, se não impossível, que a população
inteira se junte para mudar nosso quadro político. “Não adianta mudar o
presidente. Tem que mudar tudo e, principalmente, tem que mudar a educação”.
Diferente daqueles que apenas criticam seu governo sem fundamentação, Tete
acredita que eles podem nem sequer ser totalmente bandidos, talvez eles sejam também
vítimas dessa situação que nós deixamos acontecer, vítimas dessa sociedade
carente de oportunidades.
Para ela, um dos grandes problemas da sociedade é o egoísmo. As pessoas veem os problemas acontecendo, mas ninguém tem coragem de sair de sua zona de conforto para fazer algo pelo próximo, uma vez que isso não necessariamente trará algum lucro para ela, talvez seja só um incômodo, ou até um prejuízo. É isso o que prejudica tudo. Se fosse possível que todos se ajudassem, não existiriam as injustiças, as pessoas não deixariam que um senhor idoso tivesse seus direitos desrespeitados enquanto cuidavam de suas vidas, baixavam seus olhos, fingiam que não estavam vendo. Não deixariam que uma criança sofresse abusos de outras sem que as últimas saíssem impunes.
Tete fala com vivacidade e expressa-se de modo brilhante,
contagiante. É uma pessoa interessante, boa, que está sempre disposta a ajudar
o próximo, o que talvez se deva a sua necessidade de retribuir o que nunca lhe
fizeram. Ela não guarda rancor de ninguém, nem mesmo das pessoas desonestas,
que lhe causam tanto repúdio. É cheia de boa vontade. É boa, é justa, é Tete.











Isabela Maia, estudante de Jornalismo, 20 anos, apaixonada por filosofia, pedagogia, psicologia, literatura... Leitora compulsiva, viciada em videogames. Gosta muito de escrever e tenta fazê-lo todo dia; um dia pretende ajudar muitas pessoas com sua escrita.
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