20 de janeiro de 2015

Azarada


Todos os dias eu quebro alguma coisa. Se algo bem ruim pode acontecer com uma pessoa em um milhão, acontecerá comigo. Sou azarada.

Meu marido sempre diz que nós construímos nossa própria sorte e certo dia eu quase acreditei. Quando fui ler o jornal naquela manhã vi um anúncio de concurso público voltado para a minha área de atuação, o piso salarial era de R$10.000,00. Sorte, pensei, pois nos últimos 10 meses eu vinha me preparando dia e noite para uma oportunidade como essa e finalmente minha chance havia chegado.

O concurso seria realizado no sábado pela manhã, as 8h em ponto, na sede da empresa. Era sexta-feira. Ansiosa e muito animada, corri para o escritório e comecei a revisar todos os pontos importantes.

Passadas várias horas meu marido bateu à porta do escritório, perguntando o que eu gostaria de jantar. Corri em sua direção e pulei em seus braços! Contei-lhe tudo sobre a grande oportunidade que se apresentara a mim e como estava animada; ele ficou muitíssimo feliz por mim e concordou em me ajudar a revisar um pouco mais após o jantar, bem pouco, pois eu precisava ter uma boa noite de sono.

Ele cozinhou um belo e simples jantar para celebrarmos. Comemos panquecas carameladas com um chocolate quente divino coberto com chantily caseiro e um marshmallow no topo. O jeito perfeito de terminar o dia!

Acordei bem cedo na manhã seguinte. Tomei banho, comi, escovei os dentes e li rapidamente as anotações uma última vez; despedi-me do meu marido e saí de casa. Cheguei no local com certa antecendência. A sala de prova já estava aberta. Preenchi uma ficha na entrada, escolhi um lugar, sentei e aguardei.



Assim que recebi a prova, meu primeiro pensamento foi: " ISSO! Essa vaga é minha!". Fiz uma ótima prova objetiva e escrevi uma ótima dissertação com o tamanho exato exigido: 1 lauda.

Quando terminei, liguei para um colega que era corretor de redações de concurso e pedi para nos encontrarmos e ele dar uma olhada no meu rascunho. Sou ansiosa, sempre fui, não conseguiria esperar, tinha que ter pelo menos uma ideia do resultado. Após ler, ele disse que se eu não recebesse nota máxima seria quase, pois estava perfeita, preenchia todos os requisitos, além de ser muito original. Fiquei extasiada, mais ansiosa ainda e convencida de que passaria.

O gabarito foi lançado no mesmo dia. 75%. Nada mau, pensei. E então vieram as semanas de espera e ao mesmo tempo que eu tinha cada vez mais certeza de que conseguiria a vaga, tentava afastar o pensamento de que meu azar atrapalharia minha chance. Precisava ficar calma. Agora era só conseguir, no mínimo, 85% nas discursivas e 90% na redação. Estava confiante.

Chegou o grande dia e… Não consegui conter as lágrimas ao olhar aqueles números. Formou-se um nó em minha garganta e eu soluçava compulsivamente. Não era possível! A nota da redação TINHA que estar errada! Meu colega corretor adorou! Mostrei para outras pessoas e todas gostaram! Isso não podia estar certo!

Meu marido, desesperado para acabar com minha angústia, disse que conhecia uma especialista nesse tipo de avaliação e poderíamos tentar nos encontrar com ela e pedir sua opinião.

Fora prejudicada injustamente em, pelo menos, 60 pontos, dissera ela. Contudo, em sua opinião, abrir um processo ou coisa do tipo seria inútil, o melhor a fazer era seguir em frente. Seguir em frente… Era tudo culpa do meu azar! Só podia ser.

Passei semanas me atormentando com isso. " E se"… Duvido que exista algo pior que essa pergunta, essa dúvida, esse arrependimento.

Alguns meses depois ocorreu outro concurso. Dessa vez nada deu errado, eu passei. Mas não acho que foi sorte. Talvez fosse isso que a vida estava tentando me mostrar da outra vez, que isso não existe. Não existe sorte ou azar. Nós criamos nossas oportunidades, nós trilhamos nossos caminhos.

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